quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O (grande) problema da guitarra com singles e humbuckers...

         ... E eis que um dia a gente percebe o que é um potenciômetro/pot (volume/tonalidade), vai ainda mais adiante e descobre que, dependendo do tipo de captador usado, seus valores mudam. E, por fim, ainda tem que decidir se vai usar um do tipo "linear" ou "logarítimico". Bah! Dá vontade de mandar a guitarra para o luthier e deixar o stress da escolha para ele...
O problema é que nem os luthiers podem resolver completamente o impasse de qual potênciometro/pot usar quando uma guitarra tem captadores single e humbucker.
Explico: os singles são por natureza, captadores mais agudos que os humbuckers. Portanto, já que os potenciômetros também funcionam como filtros de agudos (ahá! Muita gente não sabe disso :-) ), e, considerando que quanto maior o seu valor, mais agudos eles deixam passar (principalmente o de volume - o de tonalidade tem um capacitor acoplado que também filtra agudos, mas é assunto para mais adiante), o valor ideal de um potenciômetro para singles é de 250K. Como o humbucker tem menos agudos, um pot de 500K filtrará menos agudos que um de 250K. (Alguns captadores de altíssima saída/potentes são tão abafados que precisam de pots de 1Mega, que praticamente não filtram nada de agudos).

Aí começa o problema. Uma guitarra tipo strato, com um humbucker na ponte e dois singles no meio e no braço (H-S-S) só tem um pot de volume. Veja essa Fender HSS:
 

Se usarmos um de 250K, o humbucker fica abafado. Se usarmos um de 500K, os singles ficam sibilantes e com agudos ásperos. Existem os pots de 300K, mas geralmente não resolvem o problema e podem até piorar, com os 3 caps soando mal...
Nesse post antigo sobre a Cort G260 ( http://guitarra99.blogspot.com/2010/07/cort-g260.html ), descrevo o sufôco que foi equilibrar isso. Tive que usar um humbucker Rosar especial, com bastante agudo, para ligá-lo num pot de 250K e não prejudicar os singles. E, sobre essa excelente mas difícil Cort G260, aprendi mais tentando ajustá-la do que aprenderia num curso de regulagem de guitarras... :-)

*** 12/10/2012: ATENÇÃO:  há um procedimento mais simples e prático que esse aí de baixo - siga o link:
http://guitarra99.blogspot.com.br/2012/10/o-grande-problema-de-guitarras-com.html 

Bem, para não me estender demais:
Depois que li na GP a coluna do Jaques Molina onde ele revela uma ligação "ultra secreta" e especial, tive um estalo e agora, bem, agora eu tenho uma arma infalível para resolver esse terrível impasse dos potenciômetros numa guitarra com singles e humbuckers. Usar dois potenciômetros de volume, comutáveis por uma mini chave! Fica super bem numa strato, onde sempre achei um exagero dois controles de tonalidade.

Essa variação da "molina wiring"  só foi possível com a inestimável ajuda do Sérgio Rosar. Eu estava tentando com uma mini chave de 3 terminais mas não dava certo - levei até o Sérgio e em 10 minutos ele fez o diagnóstico e o esquema de ligação: a mini chave tem que ter 6 terminais para isolar completamente um potenciômetro do outro. A SX creme, que até então não se resolvia, agora tá falando muito...
A diferença não é gritante, mas claramente perceptível: os singles perdem aquela estridência chata (estão no pot de 250k) e o humbucker "clareia" (pot de 500k).
Tive o trabalho de fotografar e "photoshopar" o esquema. É bem fácil (clique na foto para ampliá-la):


Como eu não gosto da localização original do potenciômetro de volume (minha mão direita fica batendo nele), deixei essa guitarra sem controle de tonalidade (e um pouco mais aguda no geral, portanto), mas dá para colocar o pot de tonalidade (que passa a controlar os 3 captadores): ele deve ser ligado na saída da chave de 5 posições (soldado no mesmo ponto do fio verde claro que vai para a mini chave).
A Strato SX Creme ficou assim (a posição da mini chave ficou legal ali, mas pode ser colocada em outro lugar à sua escolha):


Os dois botões de "Tone", são na verdade de volume... Depois eu troco.
PS: Agradeço aos meus dois "gurus", Jaques Molina, pela inspiração e Sérgio Rosar, pela brilhante finalização.
PS2: Já comprei várias mini chaves dessas (on-off ou on-on) de 6 terminais. TODAS as minhas HSS terão essa ligação - A G260 é a próxima... :)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Sem Luthier" Parte 2: braços envernizados "grudentos"

Outra manobra simples, rápida e eficiente. Se tu és como eu, que por alguma razão orgânica ou química, tens as mãos que cismam em grudar nos braços envernizados, precisas de apenas 5 minutos para resolver esse problema.
Antes, uma foto dos tipos mais comuns de acabamento de braço:
1): Sem acabamento, observado principalmente em braços de maple. O maple fica extremamente liso após ser lixado com lixa de grão (aspereza da lixa: quanto maior o valor, mais fina/menos áspera) 400 ou 600 e é uma madeira de poros fechados, portanto bem resistente à umidade.
2): Envernizado, nota-se pelo brilho característico do verniz. Em teoria, é liso, mas basta uma leve umidade nas mãos para o verniz travar a pele. Incoveniente para guitarristas de pele fina ou com pregas mais frouxas na palma da mão.
3) Acetinado: imagino que venha do termo "cetim"... :) O acabamento sintético recebe menos polimento. "Gruda" bem menos.


Pois bem, a idéia é tirar o excesso de polimento do verniz, deixando-o com um aspecto mais fosco/acetinado e bem mais escorregadio. Em termos práticos, o braço fica mais "rápido".
Material: Bom-Bril (o mini é ideal - 1001 utilidades :) ) ou lixa de grão maior que 600 (1.200 seria ideal).
PS: o Ógner postou aqui que teve o mesmo efeito usando uma esponja Scotch Bright no lado áspero - mais uma possibilidade, então... :)

Procedimento: na internet existem vários vídeos mostrando - alguns usam uma fita adesiva para estabelecer os limites, mas eu faço no "olho" mesmo. Seguir os contornos do braço deixa-o com aspecto mais natural, sem a diferença abrupta entre o brilhante e o fosco:
Observe a diferença do brilho entre a base do braço e sua região posterior, já lixada com Bom-Bril. Para mim, esse procedimento deixa o braço 100% mais escorregadio.
Não use muita pressão (importante) e faça movimentos uniformes e linares. Atenção para não lixar a lateral da escala (normalmente ela não sofre muito com uma lixa fina/Bom-Bril, mas sempre é bom ter cuidado). A medida que vai lixando, forma-se um pó fino branco do verniz. Use um pano levemente umedecido para limpar, seque bem e teste seguidamente, até achar o seu ponto ideal.

Na foto, 3 braços lixados. O do meio (Cort KX Custom) foi o primeiro: ainda não tinha a manha dos limites e a separação brilho/fosco é mais abrupta.

Na dúvida, inicie esfregando bem levemente o Bom-Bril/Lixa e vá aumentando a pressão se achar necessário.
O legal é que é um processo reversível. Basta polir novamente o braço - nesse caso, eu uso cera automotiva "Grand Prix" e uma flanela macia. Moleza. :)

PS: Eu sabia que havia vídeos sobre isso mas nunca os tinha visto. Como o pessoal do fórum GP perguntou sobre eles, fui procurar e aqui estão 2 links:
Galeazzo Frudua - luthier italiano
How to Fix a Sticky Guitar Neck

sábado, 13 de novembro de 2010

Para os "Sem Luthier"...P1: Como alargar furos de tarraxas.

            Atualmente a luthieria é bem conhecida e já existem até cursos especializados (como a B&H em São Paulo), mas há 20, 30 anos, luthier era coisa rara. Somente nos grandes centros e olhe lá...
Porém, mesmo com a realidade atual, muitas cidades do Brasil ainda não têm luthier e os guitarristas têm que apelar para a internet e o sistema do "faça você mesmo", na marra.
Esse grande contingente de orfãos bem que poderia ser chamado de "MSL", ou "Movimento Dos Sem Luthier", parafraseando o MST (Movimento dos Sem Terra)... :)
Como tenho muitas guitarras, aprendi a fazer algumas coisas básicas de luthieria: troca de captadores e peças, regulagens e ajustes gerais. De vez em quando me deparo com alguma coisa mais complicada e ligo para o meu luthier (cuja oficina está a 30 km de distância) para saber se arrisco-me ao trabalho ou não. 
Vou destacar aqui um desses casos:


"Sem Luthier" Parte 1:  Como alargar furos de tarraxas.

      Durante a troca de tarraxas daquela Aria com P-90 postada anteriormente, percebi que a furação era do tipo "vintage/antiga" onde o diâmetro da parte posterior é menor do que o padrão usado atualmente. Tenho uma furadeira, mas fui informado a tempo pelo meu luthier que se tentasse simplesmente ampliar o furo com uma broca comum, iria "espanar" a madeira em volta podendo até arrancar lascas. Era tarde da noite e a minha ansiedade para resolver esse dilema levou-me a uma solução bem prática, usando - imagine - uma tesoura!!
(Antes de começar, quero lembrar que é um método rudimentar e não deve ser empregado em guitarras caras. O acabamento não é perfeito e mesmo com a tesoura e tomando cuidado, podemos arrancar lascas de madeira e/ou verniz, comprometendo completamente o visual da guitarra.)

Veja as medidas de uma tarraxa vintage/antiga (modelo Kluson) com uma moderna (Grover Mini Rotomatic):

A Kluson tem haste de 6.35mm e porca de fixação (bushing) de 8.79mm. Portanto a cavidade feita na madeira geralmente tem pouco mais 8.79mm na parte de cima/frente e pouco mais de 6.35mm na parte de baixo/trás (guitarras mais baratas têm toda a extensão da cavidade na medida da porca).
Já as modernas têm 11.2mm para a porca e 9.91mm para a base da haste.
A Aria tinha tarraxas antigas e era uma guitarra bastante judiada... Achei que ela não se importaria com o risco... :) Como já havia tentado o procedimento antes com sucesso numa SX, dessa vez fotografei:

Tente deixar a tesoura o mais reta possível (num ângulo de 90 graus em relação ao headstock) e faça movimentos de rotação bem lineares, com pressão para baixo. A questão aí é saber até que profundidade vamos, e isso dependerá da tarraxa e de suas respectivas larguras (porca e base da haste). Tenha sempre a tarraxa na mão e vá testando de vez em quando, principalmente no primeiro furo. Assim que a tarraxa encaixar perfeitamente, recoloque a tesoura e use uma caneta (de transparência) ou faça uma marca qualquer no nível:

Observe que os dois primeiros furos de cima e o primeiro de baixo já estão prontos (sim, iniciei pelo segundo de cima e fiz a marca logo que a tarraxa encaixou).
Com a marca, podemos trabalhar mais rápido nos outros furos, sem a preocupação de passar do ponto. Todo esse trabalho levou uns 45 minutos na SX e apenas 25 na Aria. As pequenas irregularidades nas bordas ficam escondidas pela nova tarraxa,  mas eu uso uma lima redonda para deixar a cavidade mais bonita e bem justa:


Claro que não é igual à da StewMac:
Mas dá para o gasto... :)

Aqui uma foto com mais zoom. Apenas os dois primeiros de baixo foram alargados. Comparando o acabamento, até que não fica ruim, não? :)


PS: Esse post foi inspirado pelo meu amigo Ruy, guitarrista que mora em Palmas, no estado do Tocantins. O luthier mais próximo está longe demais! :)

PS2: Outro grande amigo e guitarrista (e em breve, luthier... :) ) o  Tanaka, postou no seu blog o procedimento técnico correto, usando uma furadeira de bancada e a broca adequada (da StewMac, é claro), com limitador/guia para manter o escalonamento da cavidade. A rotação é baixa e a broca tem mais função de "lixa" do que propriamente furadora. Repito: não use uma furadeira de mão e broca comuns, por mais simples que possa parecer... Não é.
Clique na foto para seguir o link:

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Fender "Made In Japan" - a história...

  
(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)

        Nos meus antigos tempos de banda... :), eu tocava com as minhas Telecaster 1968 e Custom 1974, feliz da vida, achando que todas as guitarras tinham a mesma qualidade. Meu primo era o segundo guitarrista e em 1984 ele comprou uma Fender Stratocaster americana 1983 novinha.
Por incrível que pareça, sempre achei o som dela muito ruim  (talvez por isso só tenha decidido ter uma strato em 2004) e ela tinha duas peculiaridades que me deixaram curioso por anos: o "jack" de saída (onde ligamos o cabo) era colocado direto no escudo, sem aquela "canoa" de metal típica. A ponte era flutuante, mas não existia a abertura na parte de trás! Além disso, o braço de maple era muito grosso, bem inferior em qualidade e acabamento que os braços das minhas teles.
Veja uma dessas stratos made in USA de 1983:


Agora, depois de vários livros e artigos sobre a história da Fender, aprendi que 1983 foi um ano particularmente "negro" para as guitarras Fender. A CBS exigiu corte dos custos de produção e a saída foi essa strato aberrante, com uma ponte estranha, o "Freeflyte" tremolo:



Não é nem questão de funcionalidade do tremolo, mas a ausência de um bloco de inércia e a grande proximidade das molas e do prendedor delas (tremolo claw) dos captadores com certeza modifica o som deles. Quanto mais metal perto dos ímãs e bobinas de um captador, maior a indutância, que pode até elevar um pouco o nível de saída, mas abaixa a frequência de ressonância, ou seja, diminui os agudos. Duvido que eles tenham criado captadores especiais para compensar esse efeito...
Como se não bastasse, alguém da CBS veio com a brilhante idéia de "modernizar" as cores. Que tal essa strato made in USA 1983, com ponte freeflyte e pintura estilo mármore?


E tem gente que vende essas stratos como "raridades". Um dos truques usados é chamá-las de guitarras da "Era Dan Smith". Não quer dizer nada e imagino que o próprio Dan Smith não ficou satisfeito.

Bem vamos ver então o que aconteceu na Fender nesse período de 1981-1985, onde foi criada a "Fender Japan" e a CBS acabou vendendo a marca Fender para os seus próprios funcionários.
Cronologicamente:

1 - Anos 70: Gibson e Fender nas mãos de inescrupulosos capitalistas (Norlin e CBS, respectivamente) têm ambas uma grande queda na qualidade de seus produtos (mas não de preços).
Paralelamente, os japoneses (Tokai, Greco, etc.) evoluem em suas cópias e no início dos anos 80 o dólar valoriza-se demais. Prejuízo das americanas e queda da exportação.

2 - Em 81 a CBS contrata Bill Shultz e Dan Smith para administrarem a Fender, ambos ex-funcionários da Yamaha. A solução frente à competição japonesa e ao câmbio desfavorável foi criar a "Fender Japan" (março de 1982) com os 2 maiores distribuidores de lá (Yamano e Kanda Shokai). A empresa recém criada contratou a Fuji Gen-Gakki (IBANEZ) para fabricar as Fender. Com o dólar alto, a exportação era inviável - a idéia então era usar o Japão como exportador (exceto para os EUA - volto a esse detalhe depois). Nesse meio tempo, a Fender iniciou um processo de "volta às origens", para melhorar a qualidade de suas guitarras. Chegaram ao absurdo de comprar guitarras e baixos Fender vintage para reaprender o processo (gastaram US$ 5.600 para comprar um Precision Bass 1957, um Jazz Bass 1960 e uma Stratocaster 1961).



Quando chegaram aos EUA as primeiras guitarras Fender japonesas (as strato eram baseadas nas 57), segundo palavras do próprio Dan Smith, o pessoal da Fender quase chorou. A qualidade era excepcional. Tudo o que eles estavam tentando fazer estava ali na frente deles e... vinha do Japão! :)

Veja um exemplo da guitarra que impressionou a própria Fender:





3 - Então, a situação era essa: Fender USA continuava produzindo para os EUA e a Fender Japan para o resto do mundo (todas feitas pela mesma fábrica da Ibanez e com o "Made In Japan"). Mas mesmo nos EUA, o custo era alto e a CBS exigiu cortes, gerando guitarras muito ruins nesse período. As piores Fender USA jamais feitas são dessa época, ppte 1983. A CBS resolveu competir com os japoneses que estavam entrando com força nos EUA e passou a vender as Fender japonesas lá também, mas com a marca "Fender Squier" e headstock estilo anos 70, para não haver competição entre eles mesmos.
(Observe que, essas primeiras Squiers vendidas exclusivamente nos EUA e com headstock estilo anos 70 ainda eram guitarras muito boas - e geralmente o selo "Squier" era pequeno e o "Fender" grande - , diferente das Squier que em seguida passaram a ser exportadas para o resto do mundo)

4 - Em novembro de 1984 (em 1986 a Norlin também vendeu a Gibson), um grupo de investidores liderados por Bill Schultz comprou a Fender da CBS. Na verdade, comprou a marca "Fender", já que a fábrica não estava incluida. Sem fábrica nos EUA, a Fender passou a depender inteiramente da produção japonesa.

Entre o final de 1984 até meados de 1986, 80% das Fender vendidas nos EUA vinham do japão.
Convém observar que, a partir de 1984, com a necessidade do aumento da produção japonesa para suprir o mercado dos EUA e resto do mundo, houve uma certa queda da qualidade e grande parte das guitarras japonesas para "exportação" tinha corpo de basswood (atenção) e acabamento em poliuretano.

ATENÇÃO: "Nenhuma Fender foi produzida nos EUA entre janeiro e outubro de 1985".

Quando a Fender voltou a produzir normalmente - e isso foi muito gradual - o interesse na produção de alta qualidade do japão diminuiu e, ao mudar de fornecedor, por força de contrato, as novas guitarras não poderiam mais usar o "made in japan", apenas o "crafted in japan", ppte a partir de 1996/97.
Com o dólar já competitivo, em 1985 a Fender autoriza outros fabricantes (ppte Coréia) a produzirem uma segunda linha, sempre denominada "Squier". A exportação japonesa diminuiu muito mas manteve-se por um bom período sem o "Squier".

A competição cada vez mais acirrada obrigou uma queda de preços e qualidade. Portanto, a Squier hoje em dia é isso que vemos: feita na China e é uma guitarra "barata" sob todos os aspectos.

Concluindo: as Fender Made in Japan, principalmentete do período entre 1982 (ou antes) e 1984
(identificáveis com o "Made in Japan" seguido por JV + 5 números), estão entre as melhores Fender de todos os tempos (lembre-se: elas quase fizeram o Dan Smith chorar... :) ). Se conseguires uma dessas, teoricamente a única coisa que pode ser melhorada são os captadores (é de consenso geral que os captadores japoneses, mesmo das melhores guitarras, não eram superiores aos Fender americanos)
O oposto ocorre com as Americanas entre 1980 e 1984: são na maioria de qualidade inferior, principalmente as Standard 1983.

Vídeo de uma "JV" de 1983

É possível encontrar excelentes Fender "Crafted In Japan" (e também "Made In Japan", porque a Fuji continuava produzindo uma parcela) mas provavelmente sem a mesma qualidade feitas pela Ibanez (Fuji Gen-Gakki).

A Fender Japan produz atualmente guitarras de alto padrão mas apenas para o mercado interno. Eventualmente, uma ou outra série especial é exportada. A Telecaster da Fender Japan TLR-RK (modelo Richie Kotzen) só é feita lá, por exemplo.

Essa questão "Made" ou "Crafted" in Japan é algo controversa, assim como as Squiers (antigas e atuais). O meu texto baseou-se nos livros sobre a Fender e Strato do Tony Bacon e A. R. Duchossoir, além do excelente site: http://homepage.ntlworld.com/john.blackman4/index.htm
Link de datação da própria Fender: http://www.fender.com/en-BR/support/articles/japanese-instruments-product-dating
Fique à vontade para acrescentar e/ou corrigir.
15/05/2017: O Aderson Bastos acrescentou também esse excelente link:
http://www.21frets.com/squier_jv/jv_quick_guide.htm

PS: ATENÇÃO:  O pessoal tá fazendo muitas perguntas sobre o tipo de madeira de suas MIJ ou CIJ ... No post, tá bem claro que é difícil saber. Geralmente as séries iniciais (JV  principalmente) de 82 a 84 eram de alder e algumas séries especiais (modelos "vintage") também. De resto, é quase tudo basswood.




domingo, 17 de outubro de 2010

Top Blog - quem disse que não existe voto certo?

 

Pessoal, o Blog da Paula Bifulco tá quase lá. Só falta o voto de vocês. É sem dúvida alguma o melhor blog da categoria e seria uma injustiça se não ganhasse. Nunca pedi voto para nenhum político, mas faço questão de pedir para a Paula. Sem o blog dela, o meu não existiria.
Abração e obrigado a quem puder ajudar!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Esse blog no Cifra Club...

Post temporário. São comentários sobre o blog que rolaram lá no fórum do Cifra Club
Se tiverem tempo para ler, agradeço.

http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/243600/

O comentário (replicado por mim) do Luthier Fábio Seiji mostra talvez a razão desse blog existir. E dependendo das manifestações, já que é público, pode também ser a causa do fim dele.

Estranho...  Uma luthier, a Paula Bifulco, me inspirou. Agora, outro luthier me faz questionar minhas motivações.

Acho que tenho o direito de expressar a minha opinião pessoal sobre equipamentos. No meu texto sobre a Tagima, em nenhum momento disse: "Não compre essa guitarra". Apenas mostrei o que descobri e o que eu penso sobre ela. Idem quando menciono o Cedro. Se o fato de eu achar o Cedro ruim ofende as pessoas, tenho que repensar o blog.
Será que esse blog é realmente útil?

sábado, 2 de outubro de 2010

Aria Pro II (TS-300)


       Essa guitarra é um exemplo típico de "pechincha de loja". Depois que aprendi um pouco sobre guitarras, ficou muito mais fácil avaliá-las. Assim, sempre que passo nas lojas daqui, o primeiro lugar que vou é na seção de usados. Já comprei umas quatro guitarras excelentes por preços ridículos. Essa Aria Pro II TS-300 é uma delas - corpo com laterais de Nato (de início, achei que fosse mogno, mas é o melhor Nato que já ouvi), centro de maple com nato, braço de maple em 3 peças. 1981, feita na fábrica da Matsumoko (Aria) no japão. Tudo isso pela bagatela de 400 reais!
Originalmente ela é assim (do catálogo da Aria de 1981):

Ponte string through body fixa, braço parafusado (mas com um encaixe perfeito, típico das Arias) dois (horríveis) humbuckers cerâmicos (muito comuns na época) e, infelizmente, aquele headstock enorme e feio.
    A que eu comprei havia sido modificada com uma excelente ponte Kahler (também muito comum na época e agora voltando com força), mas para minha tristeza, o antigo dono cavou a madeira para colocá-la (é necessário). Eu queria colocar uma ponte "wraparound" mas a Kahler, após ser travada, acabou desempenhando bem esse papel.
De cara, troquei os captadores por humbuckers de alnico, refiz o headstock e troquei as tarrachas originais, do tipo "vintage" por Grovers.
(Uma observação: quanto aos captadores originais, que qualifiquei como "horríveis", devo mencionar que esse modelo (Aria Protomatic II) geralmente é bem criticado (procure pelos reviews da TS-300 no link da Harmony Central aqui no blog), mas os que vieram nessa, talvez pelo péssimo estado e oxidação, realmente estão entre os piores humbuckers cerâmicos que ouvi.)

      O som ficou legal e tal, mas não era melhor do que outras guitarras de mogno com tampo de maple. Tentei vários tipos de humbucker, Seymours, Rosar... Todos soaram bem, mas nada excepcional. Um dia, vi um P-90 Kent Armstrong na Mensageiro Musical por 55 reais. Por esse preço, pensei, "deve ter imã cerâmico..." Abri o captador e me surpreendi com a construção e um belo par de imãs de alnico! Como já havia me surpreendido com os Lipstick, imaginei que estava na hora de experimentar também um P-90. Se não gostasse, tudo bem, eram baratos mesmo.
A escolhida para recebê-los foi essa Aria, é óbvio - não tinha nada a perder e a minha idéia era usar P-90 em guitarra de mogno. Claro, ela é de Nato e sempre torci o nariz para o Nato e Agathis, mas, não sei se pela época ou pelo padrão de qualidade da fábrica (seleção das madeiras), ou o centro de maple, dando mais brilho, nessa guitarra em particular ele soa excelente, equilibrado como o mogno.

      Quando toquei a Aria com os P-90 pela primeira vez, quase caí para trás! Meu Deus! É uma mistura perfeita e impossível de Telecaster com Les Paul! O timbre tem o corpo e a densidade de uma Les Paul e a mordida e presença absurda de uma Telecaster (me lembrou muito a força e beleza dos médios da minha 68).Geralmente recomenda-se potenciômetros de 250K e capacitores de 0.047uf para os P-90, e não tenho certeza se o potenciômetro de volume é de 500K realmente. Como o capacitor é 0.047, imagino que pelo menos os pots de tonalidade sejam de 250K. Para instalar esses P-90, tive que pedir ao luthier para aumentar as cavidades dos humbuckers e ele mesmo fez as ligações, por isso não sei os valores exatos dos pots. Mas ficaram bons e não vou trocá-los.
O P-90 tem ainda mais ruído que um single comum, mas com um som desses, ruído é o que menos importa.
E são Kent Armstrong (Sky - chineses)... :) Quem diria... Os P-90 do Jason Lollar são considerados hoje os melhores do mundo. Sou capaz de comprar um só para ver (ouvir) até onde essa guitarra pode chegar... :)

Bem, fiquei tão satisfeito com esses Kent Armstrong  que até comprei mais dois, encomendei um corpo de tele de mogno e vou ter outra guitarra com P-90!
Como havia mencionado no post da "Strato Lipstick", esses dois tipos de captadores me serviram de lição. Tenho evitado ainda mais os conceitos teóricos. Havia lido (inúmeras vezes) que os P-90 têm o som semelhante ao single tradicional mas "mais gordo". Nada disso, seu som é único. P-90 tem som de P-90!. Idem para os Lipstick.
Agora, para dizer se gosto ou não, só após tocar e ouvir.

PS: Essas Arias da década de 70 e 80, todas feitas no Japão, são guitarras excelentes e geralmente confundidas com guitarras chinesas de baixa qualidade. Dessa linha, os modelos TS-400 (Sycamore e Maple) e TS-600 (Walnut e Maple) são ainda melhores e têm braços colados. Fique de olho nas pechinchas! :)

Especificações
Corpo: Nato com centro laminado de Maple/Nato
Braço: Maple, 3 peças, formato em "C".
Escala: 25", Rosewood, Raio: 12" (ou menor). 24 trastes.
Tarraxas: Grover Mini Rotomatics.
Captador Ponte: P-90 Kent Armstrong - 8,2K
Captador Braço: P-90 Kent Armstrong - 8,2K
Ponte: Kahler, travada.
Pots e capacitor: vol 500K (?), tone 250K, 0.047uf
Chave 2PDT - configurada para cortar o sinal.


sábado, 25 de setembro de 2010

Tagima 735 Special (ou, como levar gato por lebre...)

Parece uma guitarra boa, não? Bem, vamos ver...

Rapaz, eu estava evitando tocar nesse assunto, mas esse comentário do Folli (na Strato Lipstick), praticamente me obrigou a fazê-lo. Leia o que ele escreveu:

Folli: "Eu tenho uma Tagima T 735 Special (made in china). Foi minha primeira guitarra depois que reatei com essa paixão. Não sabia nada sobre guitarras. A aparência é de uma guitarra bem construída, precisa, tem boa pintura e um acabamento que impressiona pelo preço, mas nunca me conformei com ela. Até tentei algumas coisas que andei pesquisando na internet... troquei os captadores por caps Cabrera Screaming Blues, regulei as oitavas, abaixei a ação das cordas, regulei o tensor, troquei as tarraxas, só ficou faltando mesmo trocar a ponte (talvez o mais importante). Essa foi a minha "cobaia", como vc disse aí em cima. Mas não teve jeito. Num dado momento até achei que ela ficaria razoável, até o dia que eu comprei uma Fender usada lá na Teodoro (rua de SP). A Fender precisou de algumas regulagens, tais como substituição dos saddles, regulagem de oitavas, e altura das cordas. Depois ficou excelente, como toda Fender deve ser. Bem... pra quem não sabia nada sobre guitarras, acabei aprendendo alguma coisa. Guardei a Tagima e nunca mais consegui tocar com ela. Ainda não desisti. Vou continuar tentando fazer dela uma boa guitarra. Será isso possível?"

Bem meu caro, POSSO TE GARANTIR QUE NÃO, não será possível. Espero que esse post te ajude e aos guitarristas que visitarem o blog.

      Quando comecei a me interessar, em 2006, pela parte "física" das guitarras - tudo por causa de uma strato de luthier caríssima e muito bonita mas que soava horrível (descobri depois que era graças ao corpo de Cedro), o primeiro passo, já que o meu problema inicial era com uma strato, era focar em um guitarra com corpo de Alder ou Ash, as madeiras clássicas da Fender. Como não queria investir muito, procurei pela internet e encontrei esse vídeo do Zaganin, na época diretor técnico da Tagima, falando do corpo de "Alder" da 735 Special :



Comprei-a no mesmo dia. Os captadores cerâmicos imediatamente foram trocados (escudo também) por caps Rosar, tarraxas, saddles com roller... Ela ficou assim:

Nessa foto, não dá para notar, mas ela era "transblack", a parte de cima ligeiramente transparente, e, pela transparência, a madeira realmente parecia ser alder.
Mas o som... que porcaria! Magro, desequilibrado e sem agudos, mesmo com os captadores Rosar. Não fazia sentido. Tudo que eu li sobre o Alder me dizia uma coisa e o som da Tagima outra - era ainda pior que o Cedro.
Decidi esclarecer de uma vez por todas e retirei (com removedor, muita sujeira, irritação no nariz e na pele) a pintura/verniz dela.
Como eu temia, a madeira do corpo era uma "lenha" qualquer disfarçada com uma plaquinha fina de alder. Veja as fotos:
Observe na última foto nitidamente a placa e a madeira por baixo. A placa de alder era tão fina que dez passadas de lixa 100 e ela ia embora.
E a picaretagem não acaba aí  - aquela coisa horrorosa que a Tagima diz ser alder ainda apresentava 5 colagens!!!
Para quem não conhece a textura do Alder, é só procurar na internet por fotos dessa madeira. Existe uma variação (que nem é usada em guitarras) até um pouco mais escura. Mas jamais esse "malhado" aí.
Uma foto de um corpo de alder à venda na StewMac:

Liguei para a Tagima... (editado). Ainda não consegui esclarecimento ou suporte adequado sobre esse problema.

PS: Folli, lamento muito, mas deves ter sido tão enganado quanto eu...
Porém, existe o lado positivo, e essa decepção foi uma das razões do blog existir. Tá bem mais difícil alguém me enganar com guitarras hoje em dia...

PS2: Atualmente tudo mudou no site da Tagima - o corpo agora é anunciado como Basswood e o vídeo não está mais lá, mas ainda existem as de "Alder" à venda por aí. Até no Submarino (clique em "saiba mais sobre esse produto"):
http://www.submarino.com.br/tagima735s


ADENDO 07/10/10: Até alguns dias atrás, todas as minhas pesquisas e as pessoas que questionei, luthiers incluidos, confirmaram a minha suspeita de que aquela madeira não é alder. Porém, um luthier, Fábio Seiji, através do fórum Cifra Club mencionou que "pode ser" Alder, independente do aspecto.
Já que não há mais unanimidade, e o luthier tem o respaldo técnico, eu não posso mais afirmar sem uma definitiva análise em laboratório.
Outra hipótese que deve ser mencionada aqui é que, caso não seja alder, a própria Tagima pode ter sido enganada pelo fabricante chinês, mas acredito que ela tem plena responsabilidade sobre o que anuncia e vende.
Então, deixo as fotos e o meu relato para cada um tirar sua própria conclusão.

ADENDO 18/04/2011: A "Audiência Conciliatória" foi hoje. Para saber a proposta da Tagima, siga o link:  http://guitarra99.blogspot.com/2011/04/tagima-parte-ii.html

ADENDO: 03/2013: Leia o final desse caso aqui (CLIQUE)

domingo, 12 de setembro de 2010

Stratocaster "Lipstick"



         Recentemente tive duas surpresas muito agradáveis com dois tipos de captadores nos quais não tinha muito interesse até então: singles "Lipstick" e P-90. A estória do P-90 fica para o próximo post, mas os "Lipstick" (Batom), que são singles desenvolvidos pela Danelectro nos anos 60 (o fio é enrolado direto numa barra de alnico e ambos cobertos por um tubo de metal - os primeiros tubos usados eram realmente sobras de tubos de batom), têm uma sonoridade única, como os singles de strato, mas com um pouco mais de corpo e menos estridência nos agudos. É um tipo de som que eu buscava nas stratos e que aparece facilmente com um captador lipstick. O interessante é que ele mantém aquele "quack" típico das stratos mas tem os médios com mais "mordida" (ou talvez, com menos agudos do que um single tradicional, os médios apareçam mais), lembrando a Telecaster. É uma sonoridade ao mesmo tempo familiar porém inédita. Muito legal.

O lipstick original da Danelectro usa barra de alnico VI e mede 8,1 cm. A versão da GFS (e o modelo SLS-1 do Seymour Duncan) é feita com 7 cm, para evitar mexer na cavidade dos captadores e escudo. No início hesitei em usá-los porque, via de regra, o tamanho da bobina é um dos fatores importantes da sonoridade de um captador. Além disso, os GFS usam alnico II. Mas após 2 minutos tocando essa guitarra, eu não pensaria em trocá-los nem por originais vintage... :)
Um esquema simples mostrando como o single Lipstick é construído:
Eu tinha ouvido e tocado uma strato com lipsticks Danelectro e resolvi montar uma: Corpo de basswood (bem suspeito, com 3 peças - postarei mais tarde) de uma strato Squier (a cor era um vinho horroroso - foi refeita) braço de uma SX... Coloquei o logo da Fender porque achei que ela possuia elementos "Fender" suficientes para tal, mas assinei também para ninguém achar que falsifico... :)
      Como sempre faço com minhas stratos, deixo apenas um pot de tonalidade para os 3 caps (nesse caso, liguei apenas os do meio e braço) e desloco o pot de volume para baixo. O local onde tradicionalmente fica o pot de volume é muito incômodo para a minha maneira de tocar - volta e meia a mão direita bate nele e inadvertidamente mexo no controle de volume.
Fiz alguns "relics" no corpo pra deixá-la com aspecto envelhecido. Tinha que fazer porque a pintura não ficou 100% perfeita (faltou capricho meu na hora de lixar hehehe). A relicagem equilibrou tudo :)



Não queria "cavar" o corpo por isso fui atrás desse set GFS com dimensões de single padrão. Podem falar mal à vontade da GFS, mas esses captadores são muito bem feitos e com material de primeira. E o som, que é o que importa, ficou melhor do que o da strato com os Danelectro.
O som, como falei, é muito legal no clean, as posições "2" e "4" mantém aquele som clássico da inversão magnética e o captador da ponte, que é um pouco mais forte, satura divinamente. Até acho que esses captadores brilham mesmo em situações de "crunch" ou leve saturação. Excelente a idéia da GFS de fazer valores diferentes de saída para cada captador.
(Juro que vou postar sons de todas as minhas guitarras, em breve.)...

Especificações
Corpo: Basswood, 3 peças, "Sherwood Green Metallic"
Braço: Maple, formato em "C", Fender.
Escala: 251/2", Rosewood, Raio: 9,5"
Tarraxas: Grover Mini Rotomatics.
Captador Ponte: GFS Lipstick 8K
Captador Meio:  GFS Lipstick 6K
Captador Braço: GFS Lipstick 4,9K
Ponte: Wilkinson WVP 2 pivôs (o bloco pesado faz toda a diferença...)
Pots e capacitor: Alpha 250K, 0.033uF



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tops de "Maple" - ilusão de ótica ou reais?

Postei no fórum da GP e achei relevante colocá-lo aqui também... Mais um post do tipo "utilidades de reconhecimento"... :)

       O famoso "top de maple" em guitarras sólidas surgiu durante a criação da Les Paul, em 1952. A resposta da Gibson ao sucesso da Fender Telecaster foi uma guitarra com corpo formado pela combinação de mogno (parte principal) e uma cobertura colada de maple.
Segundo Ted McCarty, o presidente da Gibson e principal responsável pelo design, eles tentaram inicialmente com um corpo de maple, mas o som ficou muito agudo. Depois, apenas mogno, mas faltavam os médios que eram a característica principal da "concorrente" (lembrando que a guitarra sólida na época estava sendo comprada principalmente por músicos de Country & Western e Blues). A lógica óbvia era unir as duas madeiras e essa combinação é hoje um dos arquétipos de corpo de guitarra.

A Gibson, orgulhosa, jamais faria uma guitarra que tivesse a mínima semelhança com a Telecaster, por isso evitou o Ash e o Alder. Ainda hoje, na Gibson, os braços "parafusados" do Leo Fender são motivo de desdém - mas nós sabemos que é pura birra... :)  O fato é que, entre 1950 e 1954, tivemos três fenômenos de genialidade que jamais foram repetidos: 1950: Telecaster, 1952: Les Paul, 1954: Stratocaster. Todas as guitarras sólidas, mesmo hoje em dia, são variações dessas três.

Bem...Voltando ao maple. O top de maple da Gibson Les Paul é escavado e grosso na parte central. Funciona como gerador de timbre e "bloco de inércia", contribuindo para o sustain. Veja uma Les Paul cortada ao meio (a camada superior, mais clara, é o maple e a inferior, o mogno):

        Hoje em dia, quando uma fábrica anuncia uma guitarra com "top de maple", não quer necessariamente dizer que é o padrão da Les Paul. Pode ser uma camada (figurada ou lisa) pequena de maple de alguns milímetros, chamada de "drop top", pode ser apenas um folha fininha (veneer) de maple figurado colado direto na madeira do corpo (com função apenas estética) ou à um top de maple mais grosso (daí o maple já funciona como elemento estrutural e sonoro) e pode ser um top de maple grosso e figurado (encontrado somente em guitarras top de linha e caras). Mas existem também aquelas que nem maple têm - é apenas uma película com a imagem impressa...
A minha PRS SE, por exemplo, tem um top de maple mais fino e flat e uma folha de flamed maple colada nele. A PRS original é escavada, portanto o centro tem mais maple. Por incrível que possa parecer, eu prefiro essa PRS com menos volume de maple - sempre achei as originais muito agudas.

 Já a LTD EC100, supostamente com um top de quilted maple, parece ter apenas uma película. veja a cavidade do suporte da ponte: aquela parte inicial branca com aspecto plástico... Pode até ser o verniz bicomponente muito grosso, mas, onde está a separação de tonalidades do maple e agathis?

Entretanto, a guitarra é linda, coloquei captadores EMG 81/85 que ficaram muito bem nela. Comprei-a após ler um teste na GP com o Michael Molenda falando maravilhas de uma guitarra tão barata. O braço é fantástico.


Continuando sobre o maple...
        A graduação (crescente) de qualidade/figuração/beleza do maple vai de "A" a "AAAAA" (É a usada pela Gibson. Outras fontes classificam apenas de A até AAAA). O nome da figuração (flamed, quilted, curly, wave, tiger, etc.) depende do corte, do desenho de suas estrias e da imagem que ele lembra:  traduzindo, respectivamente: chamas, colcha/acolchoado, cacheado, ondas, tigrado, etc. Após receber corante e verniz, algumas figurações chegam a ter aspecto tridimensional. Além de variarem de acordo com o ângulo que são observadas. Certas figurações são mais raras que outras, como o quilted em relação ao flamed, mais comum.
Veja alguns tipos de figuração do maple:

A maioria do maple não tem figuração, com estrias sem nenhum efeito visual bonito. Tipo o usado para braços de guitarra (ou no top das Les Paul "plain top"). O mais interessante é que na américa do norte, o maple figurado é considerado ruim para marcenaria e raramente usado para estrutura de móveis (ppte pela instabilidade). Segundo eles, vira "lenha".
Entretanto, folhas laminadas de maple são usadas em móveis, com um efeito visual interessante:


Antes de ser cortado, não dá pra saber se o maple será figurado ou não. As peças aparecem "por acaso" e são separadas para os tops. O aspecto é dado por uma montagem chamada de "book matched" - o maple é "fatiado" horizontalmente e as duas partes posicionadas como um "livro aberto". É nesse momento, de acordo com o aspecto final, que ele recebe a graduação. O maple book matched AAAAA é o de excepcional qualidade estética.

Veja esse top de quilted maple AAAAA, aberto (book matched) e em seguida já na guitarra:
(Observe como o uso de corante amarelo torna a figuração ainda mais viva e tridimensional)

























A propósito: "Quilted" traduz-se como "Colcha/Acolchoado/Edredon".... Parece mesmo, não? :)
  É quase impossível que uma guitarra de menos de 1.500 dólares tenha um top com grau maior que AA ou AAA. Quando tem, é folha fina (drop-top plate) de maple figurado por cima de um maple (top plate) sem figuração. Esse artifício é comum hoje em dia (vide os tops das Cort M-600 ou das PRS-SE), mas não é "picaretagem"... :) Sacanagem é vender como "top de maple" e não existe maple, apenas a folha ou uma imagem impressa... :)

Muitos luthiers juram que a figuração influencia no som. Será? Aparentemente sim, pois o "flame" é o resultado de fibras alternando-se em direções opostas... Um maple liso pode até soar melhor que um figurado AAAAA se for mais denso e rígido.

PS: já que escrevi um monte, vai mais curiosidade: depois de "book matched", se o top tiver que ser escavado (carved), existe a possibilidade do padrão sofrer alterações ou simplesmente desaparecer por completo à medida que a madeira vai sendo escavada. Nesse caso (Les Paul, PRS, etc.), a graduação só é dada APÓS a escavação.
Tem uma história de um fanático por Les Paul que guardou durante 10 anos uma peça de maple já pronta (aberta e colada), com o flame mais bonito que viu na vida. Enviou a peça para a Custom Shop da Gibson, escolheu o melhor mogno que tinham e colou o maple em cima. À medida que foi sendo escavado, o maple perdeu todo o figurado nas laterais, ficando só no centro (feio, portanto). Triste...

E depois perguntam porque guitarras perfeitas como as Les Paul Custom ou PRS Custom, com tops escavados AAAAA custam tão caro...
Madeira boa e bonita é cara - vale uma olhada nos preços (um top plate de quilted maple AAAA custa 377 dólares!):
http://www.lmii.com/carttwo/thirdproducts.asp?NameProdHeader=Figured+Maple

Mais algumas fotos, só para diversão:
Les Paul Custom Shop 59, envelhecida (o neologismo "relicada" fica mais legal) pelo Tom Murphy (flamed maple top):

Existe uma figuração que eu particularmente não acho bonita: é o "Spalted Maple". Geralmente o efeito visual é provocado pela presença de fungos na madeira:


E essa? Uma Cort M600 (boa guitarra) que custa 1.300 reais. Corpo de mogno com "top" de maple... Depois de ler todo o texto, aposto que tu já tens certeza que é um drop top (mais provável, a Cort geralmente é honesta) apenas uma folha ou, na pior das hipóteses, uma película impressa.
Os meus últimos posts levam a uma conclusão inevitável: não existe guitarra barata de mogno e maple realmente bons. Ou são cheias de artifícios ou formadas por inúmeras peças coladas...

E de saideira, um vídeo mostrando a impressionante transformação visual do maple quando realçado com um leve corante amarelado: