sábado, 22 de julho de 2017

Variedades 2017-07

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


         O título do post é "variedades" porque há vários temas passando pela minha cabeça nesse final de semana friorento aqui em floripa...


 CALÇOS STEWMAC (Neck Shims)


         O primeiro assunto, antes de ser lido, precisa de uma ida até esse post: CLIQUE AQUI. É um post de 2011 sobre problemas com angulação de braços parafusados. Até então eu utilizava pedaços de papel grosso, fitas adesivas, etc. No final de 2016, entretanto, recebi um e-mail da StewMac (empresa americana de suprimentos para luthieria) apresentando seus calços (Shims). Comprei dois e fiquei maravilhado com o resultado impecável e profissional. Já comprei mais 5 e troquei todos os velhos calços que tinha por aqui. Muito, muito conveniente e prático. Acaba de vez com o problema da perda de contato entre o braço e o tróculo e previne problemas mais sérios como a deformação do final do braço (ilustrada na figura abaixo:)

 A stewmac fez um vídeo ilustrativo no youtube. Coloquei subtítulos em português pra facilitar:



Já havia visto alguns calços desse tipo à venda, mas muito caros e não tão perfeitos. Esses da stewmac matam à pau...
Depois do "Fret Rocker", esse é o item mais importante pra se ter em casa - no caso de tu seres um guitarrista "DIY" como eu, hehehe...

PS: Convém lembrar que a utilização de calços é muito comum até na própria Fender. Guitarras saem da fábrica com os calços já instalados - e isso desde o início. Calços "vintage originais Fender" (e eles usavam até papel de lixa) são vendidos por até 100 dólares nos EUA. Parece piada mas não é... :)

 

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TELECASTERS "MAD MAX" DO ARROYO

         Quinta passada fui na oficina do meu amigo e guitarrista (e luthier, é claro) Alex Arroyo, que vocês conhecem das demos que estão espalhadas pelo blog. O que antes era uma pequena oficina no segundo andar de um prédio na galeria Jaqueline aqui no centro de floripa agora já ocupa quase metade do andar, pois estão agregados a loja de equipos usados (Pró Baixo) do Tito e uma oficina eletrônica. Sempre que vou no centro passo por lá e dessa vez aproveitei pra fotografar duas lindas telecasters montadas e finalizadas pelo Alex (e o Inaldo) que ficaram... do caralho! Vejam:




Detalhe dos botões de controle. Calibre 12? :)

Corpo de mogno. Esse corpo era meu e, assim como o próximo (abaixo), que é de cedro com top de marfim, fizeram parte do meu período de experiências (que, pelo amor-de-deus, precisa acabar) com madeiras e acabaram ficando com o Alex.


Lindas! Não sei qual o nome que ele vai dar pra essa linha, mas considerando que cada parte vem de um lugar diferente, pra mim elas têm um astral de "Mad Max". O Arroyo é apaixonado por carros também, por isso o tema - ele morre por um Opala das antigas, KKKK!

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ADEUS PARA AS ESCALAS DE ROSEWOOD...


         CITES (Convention of International Trade of Endangered Species of Flora and Fauna) é uma organização mundial que inclui dezenas de países e sua função é proteger espécies da fauna e flora que estejam em risco de extinção. 
Em 2016, a última reunião da CITES incluiu cerca de 500 espécies na lista de proteção. Entre elas, várias espécies de árvores e entre essas, a Dalbergia - o rosewood/jacarandá, que passa a ter seu comércio intensamente limitado e controlado. Essa lei é mundial e agora (desde 01/01/2017) até que tem uma guitarra antiga com escala de rosewood pode correr o risco de perder o instrumento na fiscalização de fronteiras. 
A ideia da proteção eu acho legal, mas se exagerarem na lei, vai dar merda...

        Bem, a Fender já avisou (clique para o link) que só vai usar rosewood nas suas guitarras top - provavelmente só as custom shop -  e que a maioria vai receber escalas de Pau Ferro - sim o nosso Pau Ferro da américa do sul. "Fender players can keep an eye out for pau ferro fingerboards on guitars and basses in the Standard Series, Deluxe Series and Classic Series, in addition to many other instruments made in Mexico."

Muito legal, eu já conhecia o pau ferro e é capaz até de soar melhor que o jacarandá em algumas guitarras, mas tem aquele lance da magia vintage, né? Uns 10-20% dos guitarristas - eu incluído - vão cismar que falta alguma coisa, hehehe :) 

domingo, 9 de julho de 2017

Tele de Timburi: Testes e Opiniões

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


         Bem, toda essa nova sequência de posts praticamente começou com o post de dezembro de 2016 onde eu discuti a questão da inclinação do captador da ponte da telecaster (e também da strato, mas é na telecaster que eu acho esse detalhe crítico). 
A ideia era pedir para o Eduardo Kaiser, da  Kaiser Guitars, um corpo de telecaster com a cavidade do captador da ponte invertida. Conversa vai, conversa vem, ele me convenceu a testar uma madeira chamada Timburi, cuja densidade está entre o alder e ash. 



        O corpo ficou perfeito (como sempre) e adorei o timbre do Timburi. Me parece uma excelente madeira para Teles e muito provavelmente, Stratos. Talvez a melhor até agora, na frente do cedro (bem, qualquer uma ganha dessa), marupá, tauari, mogno e freijó. 
Antes de entrarmos na questão do timbre, já vou dando um toque: antes de pintar o Timburi, use filler/massa para madeira. Eu utilizo os da Sayerlack, à base de água e com vários tipos de coloração para diversas madeiras. Cada latinha custa entre 12 e 18 reais:



        A superfície natural do Timburi tem muitas micro ranhuras e poros grandes, semelhante ao mogno...Se não usar filler, vai ter que encher de tinta/verniz, que não é aconselhável. Na foto em close dá pra ver o tamanho dos poros:


        Mas, casa de ferreiro, espeto de pau, fiquei com preguiça de passar pelo processo do filler e fui direto pra pintura... Se soubesse que o timbre seria tão bom, teria colocado o filler antes e evitado umas 3 ou 4 demãos de tinta e/ou verniz :) 
Até o momento, madeira aprovadíssima para teles. E essa peça é particularmente leve. Muito legal.

        Um dos testes mais interessantes que faço aqui é o da "gravação". Sempre que vou gravar alguma música, quase que instintivamente escolho a guitarra que vai dar um timbre mais legal naquele contexto. Era uma base de rock/boogie woogie, timbre levemente saturado: olhei para as guitarras e, das 9 telecaster que estavam na minha frente, optei pela Timburi. A segunda guitarra, no contratempo, precisava de um timbre algo mais cheio, meio humbucker e, mesmo com todas as maravilhosas Gibsons que tenho, novamente usei a Cabronita - essa já tá virando rotina por aqui. Gosto muito do timbre desses captadores. Humbucker clássico é definitivamente pra coisas um pouco mais "hard".
         Quando montei a guitarra, estava sem nenhum Rosar V-Hot-T disponível e acabei usando um outro, também montado pelo Sérgio, com padrão de bobinamento do V-Hot, mas com fio enamel e imãs de alnico III. Embora seja o magneto inicialmente usado por Leo Fender nas teles, não gosto do alnico 3: me parece meio linear na dinâmica (observem depois que o Faraco percebeu isso na avaliação dele), com pouco punch e sustain, ou seja, insosso :). Mas o enamel tem um timbre algo mais nervoso, irregular e sujo que o polysol e o formvar e até que, na mistura, ficou um captador interessante...
O captador do braço é um Kent Armstrong (gosto muito dessa marca: barata e boa) de polysol mas bobinado no padrão clássico vintage da Fender - fio 43AWG, 7,1 k... Antes que perguntem mais detalhes, o braço é Mighty Mite (autorizado Fender), one piece maple, raio 9,5", tarraxas (maravilhosas mas feias) Planet Waves, ponte "lefty" Fender MIM, pots CTS vol e Alpha tone, de 500k. capacitor polipropileno 0,33. 

Bem, vamos às avaliações da dupla que todo mundo curtiu da outra vez: Faraco e Jean :)

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 Jean Andrade

        Testei-a comparando com minha Fender Telecaster American Vintage 52, com corpo de Ash e braço e escala em uma peça de maple. Além disso, embora eu não esteja mais com a tele de Pinho, tenho ainda presente na memória algumas das características desta também. Infelizmente, para fazer o rápido vídeo, não lembrava quais configurações de volume e equalização que utilizei no Fender Deluxe Reverb e nos pedais. Minha impressão é que toquei em volume mais baixo na Timburi.

         Desligada, a Timburi soou aberta e ressonante, mais próxima à RI52 do que a Pinho se mostrou no teste anterior, mas também com um pouco menos daquela firmeza característica da RI52. Me pareceu mais firme e menos macia que a Pinho, portanto, mais na onda da tele tradicional. O “feeling”, desligada, tá entre uma tele e uma strato, um pouco mais pra tele.

         Plugada, ela soou muito mais como uma tele tradicional do que a Pinho. O captador do braço abafado como normalmente nas teles tradicionais (mais abafado que a da RI52, que agora é um Dimarzio Twang King, mais aberto que o original). A posição do meio também é tipicamente de tele, com aquele timbre lindo para bases. E na posição da ponte também, tele bem tradicional, com a diferença que a RI52 tem ainda mais agudos nas cordas, acredito que por conta da inversão da posição do captador da ponte na Timburi.

         Portanto, na minha percepção, essa Timburi está consideravelmente mais perto de uma tele tradicional do que a Pinho se mostrou. Contudo, não se deve esquecer a importância de considerar as diferenças do conjunto (braço, ponte, captadores, hardware). A Pinho apresenta timbres mais equilibrados, tanto clean quanto drive/distorção e, portanto, não soa como uma tele tradicional. Não há na Pinho uma diferença brutal entre o abafado do captador do braço e o agudo desenfreado do captador da ponte, como há nas teles tradicionais e como também está presente na Timburi, embora em menor escala, provavelmente pela inversão da posição do captador da ponte.

         Em resumo, o Timburi me pareceu uma ótima opção para quem quer uma sonoridade clássica, de tele tradicional, em contraposição ao pinho, que me pareceu mais macio e, portanto, indicado para uma tele mais versátil e equilibrada, mais na onda das strato. Reitero que, pela quantidade de variáveis, é difícil definir a atuação do corpo de timburi (bem como do pinho) nessa equação, mas ao final minha impressão é que, aos puristas, o timburi tende a ser bem convincente para os timbres de tele tradicional.
Ou seja, outra madeira de boa qualidade acessível, com ótimos resultados.


Vídeo: Fender Deluxe Reverb, Boss OD-3, Boss CH-1, BOG Deep Trip

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Miguel Faraco

 ...Mais uma vez o meu amigo Paulo May me pediu para testar e dar uma pequena opinião. Agora, sobre a tele de Timburi, uma madeira cuja densidade está entre o Alder e Ash.
Peguei a guitarra e à primeira vista achei com uma ação um pouquinho alta, que não é ruim, as cordas vibram melhor mas... Eu gosto de ação mais baixa... Bem, adiante:
 

        Eu tenho uma mania: testar as guitarras que são do meu interesse não como a maioria faz, plugando num ampli e tocando com ela limpa ou com um drivezinho. Eu só consigo sentir as frequências da madeira com uma banda tocando junto normalmente, como numa apresentação ou num ensaio. Ou seja, com altos volumes normais que uma banda faz. Somente assim eu claramente consigo perceber e definir algumas frequências que se sobressaem (ou o oposto). Não sei se é o correto mas me fidelizei assim, fazer o quê né... :)
Bom levei a guitarra para o ensaio da minha banda e toquei com som limpo, drives de baixo ganho e de alto ganho.


         À principio a guitarra soa bem clara, "estaladinha" mas bem definida. Não estou dizendo que é mais aguda ou que sobra alguma frequência mais aguda, mas somente que soa um pouco menos grave. Achei o ataque das cordas graves um pouquinho comprimido, como se tivesse um muito discretíssimo slow volume - diria que um tipo de limiter/compressor  - efeito esse que eu sinto em les pauls gibson. Isso eu senti em todas a posições dos captadores e quer dizer o que?... Aparentemente nada de importante. Nas musicas do Pink Floyd realmente ela soa mais magra que as stratos. Nota-se claramente isso e, óbvio, estamos acostumados com as stratos das gravações originais, por isso ela soou diferente, mas eu gostei muito. Apesar de gostar de guitarras um pouco mais fechadas, ela é clara e tem sustain - isso é muito positivo pra mim.

        Mas... daí o que me surpreendeu foi quando eu toquei uns Zeppelins - putz!  Alvíssaras,  alvíssaras... :) A coisa esquentou. Nunca consegui o timbre mágico do Jimmy Page do disco Houses of The  Holy, nas músicas The Song Remains the Same e Dancing Days - é um timbre mais agudo, com sustain, discreto drive porém com peso. E eu já testei com Les Paul Gibson, SG, ... Mas essa telecaster de Timburi ficou muito parecida com as frequências que eu queria - o que me levou a pensar naquela "compressão" que eu falava acima. Tinha uma discreta característica de guitarras feitas de Mogno já que à principio parece que Jimmy Page gravou essas músicas com uma double neck Gibson e telecaster, mas a  guitarra de Timburi não deixa nada a desejar. Sinceramente eu gostei muito dessa característica e ademais é bom lembrar que são experimentos com madeiras brasileiras ou seja, podemos sim utilizar outros tipos diferentes de madeiras além das que estamos acostumados... 

Muy bueno, muy bueno :)

(o Faraco não teve tempo de gravar com qualidade porque era ensaio, correria e tal, mas me enviou um vídeo de celular que alguém captou na hora - dei uma equalizada pra compensar e, embora o áudio esteja longe do ideal, dá pra ter uma ideia da resposta dinâmica e sustain da tele de timburi. Segue o vídeo:)



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        Quanto à minha opinião, volto a afirmar o que disse naquele primeiro post: eu tenho mais de 10 teles, várias madeiras, e pelo menos 3 delas - duas de ash e uma de alder que são fantásticas.
Gostei muito da tele de timburi - arrisco a dizer que é uma das melhores madeiras que já toquei - alder e ash incluídos. Mas, como mesmo madeiras da mesma espécie - e até da mesma árvore - podem variar, precisamos de mais teles de timburi pra confirmar isso...

         O meu gosto pra timbres é um pouco peculiar - embora o critério mais importante de julgamento seja o equilíbrio das frequências, prefiro as guitarras com maior amplitude e variação dinâmica e principalmente com sonoridade mais "aberta", com poucos graves. Timbre claro, definido, com complexidade e equilíbrio harmônico e graves presentes, mas definidos e "secos". Tive sorte com os meus amigos Faraco e Jean porque ambos geralmente preferem guitarras um pouco mais "warm", macias, não tão abertas. Já o gosto do Oscar eu colocaria como um meio termo entre nós três. Se ele tivesse tempo pra testar também, seria perfeito - uma guitarra que passasse pelo crivo dos quatro com certeza agradaria 95% dos guitarristas :)

         Não sei se é por causa da minha preferência e/ou longa experiência com teles, mas cheguei num ponto onde, para os meus ouvidos, TODAS soam diferentes! Todas soam genericamente como telecaster, mas é nos detalhes, principalmente na coloração e extensão dos médios e definição dos graves, que eu ouço as diferenças. Além do mais, som de telecaster clássico "mesmo", nem sei se é uma unanimidade...

        Há tempos postei um vídeo com uma edição de vários timbres "clássicos" de tele. Todos lindos, todos inesquecíveis. Pra quem não viu, segue abaixo:


Telecaster Timburi