domingo, 19 de maio de 2013

Ponte de Telecaster: entrando nos detalhes (parte 2)


(Autor: Oscar Isaka Jr.)



          Continuando a saga das variações de timbre causadas por pontes e etc, talvez o post de hoje continue explicando porque esse componente representa a maior variação tonal entre todos.
O foco agora é ponte Telecaster, a mãe de todas as guitarras sólidas, criada no início dos anos 50 por Leo Fender. Um dos meus passatempos preferidos tem sido a pesquisa de timbres da Fender. Strato e Tele têm tomado muito das minhas pesquisas sobre como e de onde os timbres clássicos são gerados. A Telecaster é incrivelmente versátil e pode gerar uma infinidade de timbres diferentes com as mais diversas aplicações que vão literalmente do Country ao Metal.

A simplicidade da Tele talvez seja também sua maior complexidade. De onde vem o Twang Clássico? Quais as variáveis? Madeiras do corpo e braço? Captadores? Tarraxas? Ponte? A resposta é.... TODAS AS ANTERIORES, mas hoje vamos nos ater somente à importância da ponte nessa confusão toda.

Senta que lá vem a história.....

          Fazia muito tempo que eu brigava com a minha Tele. Desde que ouvi a Fender Telecaster 1968 do meu amigo Paulo May eu achava que a minha era estranha e não chegava nem perto do som que eu considerava ideal. Cheguei a dizer pro Paulo que ele nunca ia gostar de uma tele de Alder, pois não tinha nem de perto o timbre das Teles que ele estava montando.

Essa em questão é uma Tele Mexicana ano 99 onde foram feitos os chanfros de corpo e apoio de braço de Strato e toda repintada em azul metálico, uma das características das teles nos anos 60. Quando a comprei, era tudo o que eu queria, pois as quinas da tele me incomodam e esse azul era uma das minhas cores preferidas. Ela tinha um par de Seymour Quarter Pounder para Tele que, pensei, troco e pronto!

A realidade não foi bem assim. Experimentei de tudo nessa guitarra e ela só falava legal com humbuckers Dual Blade na ponte. Testei os dois do Sérgio Rosar, True Vintage e Vintage Hot, dois Seymour Duncan sendo um Antiquity 55 e um Vintage for Broadcaster, Fender Texas Specials e nada do twang aparecer.

Depois de muita pesquisa, essa semana achei um artigo do mestre Bill Lawrence (foto abaixo) que falava sobre os materiais das pontes de Tele e diferenciava-os em ferrosos e não ferrosos. Os ferrosos (onde o imã gruda) interferem diretamente no campo magnético do captador de ponte, alterando a indutância, aumentando a capacitância (mais metal) e portanto influindo diretamente no som do mesmo.

Bill Lawrence

Juro que pensei Será? Vai ver é o mesmo efeito "sutil" das pontes de Strato com e sem bloco etc. Muda mas não drasticamente.

Pesquisando um pouco mais me deparei com o seguinte parágrafo do nosso querido Seymour W. Duncan (tradução livre):
Seymour Duncan

"Uma ponte ferrosa provoca a expansão do campo magnético dos single coils, gerando uma sonoridade única, clássica. Numa ponte não magnética, sem ferro, (latão/brass) não há expansão do campo magnético, deixando o captador com um som mais claro/agudo, limpo. Com captadores dual blade, uma ponte ferrosa não vai funcionar bem porque a placa atrai os dois campos magnéticos opostos (característica dos captadores humbuckers/dual blades) e essa combinação interfere com a qualidade e eficiência do captador. Captadores desse tipo funcionam melhor em pontes não magnéticas (aço não magnético ou latão). 
Eu não gosto de ponte de latão/brass porque ela modifica o timbre do single coil. 
Para uma sonoridade tradicional de Telecaster, certifique-se que a ponte seja ferrosa (atraia imãs)".

Ok, dois mestres argumentando... Eu tive que pagar pra ver...

Fiz o teste na minha Gotoh Modern Tele Bridge (foto à esq.) com 6 saddles/carrinhos e o imã não grudou na placa/plate, mas grudava nos saddles. Conclusão, material não ferroso no plate e saddles de aço. No seu artigo, o Bill Lawrence (assim como Seymour Duncan) comenta que esse magnetismo da ponte vintage/ferrosa não é legal pra captadores humbucker tipo dual blade e que um plate não ferroso é mais apropriado pra esse tipo de captador.
Não é a toa que ela falava bem com humbuckers....
Leia o artigo do Bill Lawrence

Fui atrás de uma ponte vintage, saddles de latão. Exatamente o contrário do que eu tinha na minha. Achei uma Wilkinson by Gotoh Vintage. Fiz o teste e positivo, o imã grudou no plate. 
Instalei a ponte vintage, com o mesmo True Vintage Sergio Rosar, afinei e com duas notas eu havia achado o timbre. Os médios que eu tanto queria estavam lá. O DNA da guitarra estava alterado, tanto que gravei o segundo set de samples pra ter certeza que a mudança tinha mesmo sido tudo aquilo. E não só eu percebi como todos que ouviram perceberam as mudanças!

Ponte Vintage

Nesse vídeo dá para perceber as diferenças de sonoridades (clean e crunch) das duas pontes:

video

A variável da equação que eu não estava considerando era justamente a que faltava pro timbre que eu estava procurando. 

Conclusão: agora minha tele estava soando como eu sempre quis que ela soasse. Ficou um meio termo entre uma Tele Country Twangger e com a rispidez agressiva de uma Tele Rocker!


Resumão de ponte de Tele:

Plate:
Aço Ferroso (Imã gruda): Twang Clássico, ataque com característica mais "Tóin", com agudos mais redondos devido a interação do magneto do captador com a ponte que aumenta sua indutância. Ótimo para obtermos os timbres clássicos do Twang Country. Jerry Donahue é um ótimo exemplo dessa sonoridade. 

Latão: Timbre mais seco e ataque mais preciso e sem interação magnética. Ótimo pra sons com maior dose de ganho e uso de captadores mais fortes como humbuckers por exemplo. Todas as Fender American Std vem com esse plate de latão e Keith Richards utiliza-o até hoje em suas Teles! 

Saddles:
Latão: Ataque mais preciso e sequinho, com tendência de segurar agudos. Junto com o plate de aço, faz a combinação clássica da Tele 52 amarelinha. 

Aço: Introduzido em meados dos anos 60, produz um som com mais conteúdo de agudos e mais força/punch, sendo novamente ótimo para sons com drive pela maior definição sonora. Novamente é a escolha da Fender para a American Standard, numa concepção mais moderna dos sons de tele!

... É realmente incrível e fascinante como de novo um pouco de pesquisa e informação conseguem transformar uma guitarra normal em um ótimo instrumento!!

____________________________________________Oscar Isaka Jr.


PS:
Pois é, convidei o meu amigo Oscar Isaka Jr. para dividirmos os posts e responsabilidades nesse blog :)
Já havia copiado para cá outros posts do blog dele, sempre repletos de informação crítica e analítica de alta qualidade.

Em relação à essas características das pontes ferrosas e não ferrosas de Telecaster, foi ele quem me chamou a atenção. Eu tenho ambos os tipos de pontes em diversas teles e não havia me tocado dessa ENORME diferença. O post é sensacional e acrescenta ainda mais informação para a timbragem de guitarras. 

Paulo May.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Telecaster Butterscotch "Relic" de Marupá



         Assim como ocorreu com a strato Wally (clique pra o link), a ideia de fazer uma guitarra com corpo de madeira brasileira ainda continua. Fiquei impressionado com a sonoridade da Wally e o Marupá, até então uma madeira que pra mim soava triste e travada como o Basswood, revelou-se uma grata surpresa.
A Wally tem ponte "hardtail" (fixa) e uma sonoridade bem peculiar - é mais forte que uma strato de ponte flutuante mas não dá pra dizer que seja um híbrido de strato/tele. 
Na minha opinião, as stratos com ponte fixa deveriam ser consideradas uma "espécie" própria.

Pois bem, depois que descobri o luthier Adriano Ramos em BH/MG, que faz corpos de Marupá (e outras madeiras nacionais) bons e baratos, encomendei logo de cara dois corpos de telecaster com ele: um clássico, que resultou nessa tele e outro no formato "La Cabronita", pois pretendo comparar o Marupá com o Sugar Pine/Pinho americano da minha primeira "Cabronita", a Custom Golden Leaf.

         Um lembrete importante pra quem já tá pensando em comprar um corpo de Marupá: Ambos os corpos que comprei são de peças inteiras de Marupá. Isso parece legal (e é), mas historicamente é recomendado que madeiras menos densas e mais flexíveis sejam usadas sempre em duas partes coladas. Mesmo com a peça inteira disponível, devemos cortar e colar no centro. Essa manobra diminui consideravelmente a possibilidade de empenamentos (e isso ocorre, eventualmente) no corpo. A perda de ressonância é ínfima, pois são duas partes "irmãs" - mesmas características.
Praticamente a mesma ressonância com o dobro de estabilidade.


O Marupá é uma madeira abundante no Brasil, de densidade baixa à média, relativamente porosa, cor esbranquiçada e quase sem veios/lisa. Não tem resistência e dureza para ser utilizada em braços, apenas em corpos. 

A primeira característica que olhamos numa madeira é sua densidade (em g/cm³, que está diretamente relacionada ao peso) e o Marupá tem densidade próxima do Basswood (0,3-0,6 g/cm³)  e algo maior que o Poplar. Está um pouco abaixo do Alder (0,4-0,7 g/cm³) e Ash (o Swamp Ash pode ter densidade similar, entretanto). O Marupá é uma madeira geralmente utilizada no Brasil para palitos de picolé e fósforo, cabos de vassoura, brinquedos e caixas de frutas. Todo mundo conhece o Marupá :). "Caxeta" ou "Caixeta" é um nome genérico dado a várias espécies similares, entre elas o Marupá.

Madeiras muito ou pouco densas são geralmente ruins. As mais musicais estão entre 0,3 e 0,7 g/cm³. Claro que outras características também determinam a condução e ressonância sonora, mas a densidade é o ponto de partida. Na foto abaixo, os dois corpos de Marupá feitos pelo Adriano:


É bom lembrar, que, para manter o preço baixo, o Adriano não faz o lixamento/nivelação final, que é necessária antes da pintura. Em alguns pontos usei lixa 120/150, mas finalizei com 220 e 400. Para que a pintura não fique com irregularidades, a superfície tem que estar bem plana e lisa. Ao lixar, é legal de vez em quando umedecer com um pouco de álcool, que melhora a visualização das irregularidades e arranhões.

Após lixar, pintei com tinta (esmalte à base de água) à água, um pouco que restou da pintura da casa de praia da minha família (não lembro a marca, mas a cor era "Marrocos"). Achei a cor muito similar ao "Butterscotch" (doce de caramelo) americano, que a Fender utiliza desde a década de 50.

Repeti o mesmo processo de relicagem que fiz na Wally... Novamente, não documentei porque o processo é muito instintivo. Basicamente, pintar, sujar, lixar, pintar novamente, mudando um pouco a cor e diluição, sujar, envernizar, riscar/furar/arranhar, sujar, envernizar mais um pouco, lixa leve, polir levemente.
Pra sujar, nada melhor do que pó de grafite, cinza de cigarro, tinta à óleo (dessas para pintura em tela, que vêm em tubinhos) marrom, cinza e numa cor próxima à da pintura. Devemos "sujar" em tempos diferentes, principalmente no verniz, pra não ficar uniforme demais.
Esse padrão de relicagem que eu fiz é considerado "pesado"/heavy relic, pois além do aspecto antigo, ela também parece bastante surrada :). Ainda falta envelhecer um pouco o headstock. Não fiz porque fiquei na dúvida se colocava esse braço ou outro de maple/maple com tensor de acesso traseiro. Seria mais fidedigno (exceto pela ponte) do período (anos 50) mas eu não gosto muito de braços de maple/maple, infelizmente.

O braço é o dessa guitarra (clique e veja o dia 2). SX, mudei o headstock para strato e agora resolvi mudar para Tele... :). Raio de 14 polegadas (clique para saber o que é raio da escala), como 95% dos braços chineses. Êta! Sua "Frequência de Ressonância" /tom é perto de F3 (oitava casa, quinta corda), portanto tende para o agudo.
Ponte Condor/Chinesa ferrosa (liga de zinco - sofre ação magnética), carrinhos de aço da GFS, escudo chinês pintado de preto.



Liguei para o meu luthier, o Inaldo, para combinarmos de fazer a furação da ponte com a furadeira de bancada dele, mas na pressa de acabar (como sempre), novamente fiz à mão, ou seja, mesmo com muito cuidado, é quase certo que eles ficam um pouco desalinhados na parte de trás (se serve de consolo ou não, várias teles Fender da década de 50 tinham furos desalinhados...).
Tarraxas Wilkinson (muito boas e baratas). As peças de tele e strato, em geral, compro direto da china no e-bay (tudo muito barato) ou no ML.

O timbre? Muito bom! Mesma personalidade da Wally: o Marupá tem graves sim (li várias vezes que tem mais médios - não é verdade), médios centrais mais contundentes porém menos complexos que o alder e o ash pesado. Agudos  equilibrados e obedientes, mas talvez soem melhor com pots de 250k (quase sempre uso de 500k nas teles). Não tem o buraco de médio-agudos (centro em 1,8 kHz) do Cedro, portanto, na minha opinião até o momento, é a melhor madeira nacional para teles e stratos.

Aqui, uma pausa para lembrar que a maior parte do som da guitarra está na região dos médios (300 a 2.400 Hertz). Não dá pra simplesmente falar "médios bonitos" sem especificar uma sub-faixa, principalmente quando falamos de Telecaster, a rainha dos médios. Então temos que considerar:
MÉDIO-GRAVES:  300 - 600 Hz
MÉDIOS:                 600 - 1.200 Hz
MÉDIO-AGUDOS:  1.200 - 2.400 Hz
O médio do Marupá é dominante no centro: 600 - 1.200 Hz, por isso a sensação de maior projeção sonora. O Alder geralmente tem mais médio-graves, mas não costuma acentuar nem bloquear muita coisa. O Ash varia bastante, mas a marca registrada da minha Tele 68 de Hard Ash é de uma curva maior, porém suave, nos médio-agudos, com uma também suave concavidade nos médio-médios. Obviamente ela soa mais complexa e sutil que a Tele de Marupá... As outras duas Teles de Hard Ash que tenho são muito semelhantes, mas falta-lhes a concavidade dos médios-médios, por isso soam algo mais pobres e lineares nessa região.
E nem vou mencionar o que rola depois dos médios, pois agudo é tão complicado quanto.

Só gravando e ouvindo as diversas Telecaster podemos perceber esses detalhes essenciais. É assim que aprendemos a timbrar guitarra. Por exemplo, posso trocar esse captador Sérgio Rosar Vintage Hot (7,2k) por um True Vintage (6,47k). Quanto menor a saída/força, menos médios. Nesse caso, provavelmente vai sobrar um pouco mais de agudos e por isso terei que diminuir o valor do potenciômetro para 250k  para filtrá-los. Se vai funcionar? Não sei, mas essa é a lógica que devemos seguir. Se der certo, terei uma referência de ouro para Teles de Marupá: pots de 250k e captadores de baixo ganho na ponte :)

Sei que tô parecendo meio prolixo e detalhista, mas médio é FODA! Nas guitarras consigo diferenciar (na verdade, aprendi a ouvir) tudo quanto é tipo de médio. Tem o médio "chute no saco", o médio "feijão com arroz", o "médio irritante"... Mas eu tô sempre atrás é daquele médio que só a Telecaster (algumas delas) pode dar: "crocante e delicioso"! E vem com molho de twang e estalos! KKK!

Ainda vou tocar um pouco mais ambas as guitarras de Marupá e depois volto aqui pra complementar minha opinião sobre essa madeira. Mas com certeza é melhor que o Cedro e o Basswood para guitarras tipo Fender.

O captador da ponte é um magnífico Rosar Vintage Hot T (7,2k), mas customizado pra mim, com escalonamento dos pinos de alnico (é o mesmo captador da Tele 68 e de várias outras aqui):

Toco Telecaster há mais de 25 anos. Pra mim, essa é a configuração ideal dos pinos. Dessa forma, não precisamos inclinar tanto o captador e tudo fica mais equilibrado. Funciona muito bem para braços com raio de até 12", mas o ideal é raio de 9 ou 10 polegadas. 14" dá apertado. Não entendo como as pessoas não percebem a falta de força da 4ª corda/Ré nos captadores com pinos "flat", equidistantes... Bem, nas Telecasters eu só uso cordas de calibre 0.09 (maximum twang, hehehe). Nas demais, 0.10. Cada um com a sua mania :)
A ponte ferrosa interfere no campo magnético, ao contrário das pontes de latão/brass (Gotoh, por exemplo) e de certa forma aumenta o ataque e força do captador, podendo acentuar um pouco a ponta dos médio-agudos e agudos. Como o ataque de médios pode soar irritante, principalmente em se tratando de Telecaster, a combinação madeiras/captador/ponte tem que ser precisa.
É muito difícil saber qual a ponte ideal para determinada telecaster/captador. Se desejarmos um som mais estalado e comprimido, com um pouco menos de graves, a ponte de latão é ideal. Mas se a tele está soando meio anêmica, uma ponte ferrosa pode resolver.

Observações/FAQ:
1 - Pintei com rolinho... Guitarra se pinta com compressor/pulverizador profissional e o acabamento/polimento é feito com politriz. É a única maneira possível para deixá-la com aspecto brilhante e reflexivo. Mas se a ideia é fazer um relic/envelhecimento artificial, podemos pintar à mão ou com spray em lata. Nunca dá certo na primeira vez. E talvez na segunda... :)

2 - Vários problemas e intercorrências surgem no processo de montagem e acabamento e boa parte delas só um luthier resolve. À medida que vamos ganhando experiência, podemos nos arriscar, mas sempre há o risco de fazermos cagadas :). Posicionamento e furação da ponte, por exemplo, só consegui fazer sem me desesperar depois de dois anos mexendo e mesmo assim ainda não gosto. Sempre fico estressado com isso.

3 - O braço,  na região de encaixe no corpo (tróculo) era 1,5 mm mais largo que o padrão Fender. O Adriano deixa, por segurança, o tróculo um pentelho mais fechado para o braço encaixar na pressão (ideal). Assim, fiquei com um belo problema nas mãos - que eu detesto tanto quanto posicionar e furar pontes. Mas aprendi errando que não devemos mexer no tróculo do corpo, exceto quando muito fora do padrão. Lixei o braço até entrar... :)

4- Nunca faça furos que atravessam o corpo usando furadeira de mão. NUNCA. A madeira desvia a broca e raramente o furo sai reto do outro lado. Eu faço uma pequena furação guia com a Dremmel + suporte/guia e mesmo assim fica meio torto. Sempre utilize furadeira de bancada/fixa.

5 - Existem dois padrões de ponte e furos para Telecaster: Vintage, para pontes de 3 saddles e/ou modernas  adaptadas de 6 saddles/carrinhos para essas medidas (Gotoh, por exemplo) e Moderna com 6 saddles. Os furos da vintage não batem com os da moderna, pois são localizados mais atrás no corpo. Desconheço pontes modernas de latão. A única que reúne esses requisitos é a Gotoh, pois tem 6 saddles e obedece a furação antiga (os saddles são mais longos para compensar).

6 - Lixas (de todos os grãos) são nossas melhores amigas... Aprenda a usá-las e elas nunca te deixarão. :)


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O próximo post, do meu amigo e colaborador/co-autor desse blog, Oscar Isaka Jr., vai abordar os detalhes  das pontes de Telecaster. Post essencial.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Teste Cego entre 5 Les Pauls - "The Doug and Pat Show"

         Novamente, um post sobre o timbre mágico das Les Pauls clássicas (58/59/60) e seus captadores PAF inatingíveis.
Descobri recentemente vários posts dessa dupla fantástica de fanáticos por guitarra, de Portland/USA, Doug and Pat. O primeiro vídeo que assisti era um teste "cego" (a fonte não é identificada) entre 5 Les Pauls. Eles desafiavam o ouvinte a tentar adivinhar a guitarra pelo som. Entre elas, duas caríssimas LPs, uma Gold Top de 1958 e outra sunburst de 1960, duas cópias de alto nível (Heritage H150 e LP custom do luthier Gary Hines) e uma cópia japonesa "barata" dos anos 70, a já clássica Tokai "Love Rock".

Todas já haviam sido demonstradas em vídeos anteriores, mas eu fiz o teste sem assisti-los. Achei que poderia identificar pelos captadores que conheço: PAFs (58 e 60) Seymour Duncan Seth Lover (Gary Hines) e humbuckers genéricos antigos, talvez até com imãs cerâmicos (Tokai).
De fato, meus palpites estavam corretos e mesmo sem ver os vídeos anteriores, acertei 3 delas - eu só não sabia qual das duas Gibsons era a "mágica", mas apostava na 58, pois geralmente o braço mais fino das 60 as coloca em desvantagem frente às 59 e 58.

Para o deleite dos leitores do blog, entrei em contato com Doug Fraser e ele me autorizou a fazer uma versão editada e traduzida desses vídeos. E de quebra já convidou o pessoal aqui pra assistir a uma entrevista com o Bonamassa que eles fizeram recentemente e vão postar em breve. O canal do Doug and Pat Show no Youtube é aqui (clique). Se dominas bem o inglês, vale a pena assistir os originais também.

Antes de começar, gostaria de lembrar-lhes que esse "som maravilhoso" de uma Gibson clássica com PAFs é apenas sutilmente diferente dos outros/cópias. O timbre de uma excelente (sim existem ruins dessa época) LP vintage é complexo, sem nenhum excesso de graves (definidos e articulados) e agudos (perfeitos). Os médios são tridimensionais, uma mistura de guitarra/sax/voz humana, que soam diferentes a cada dinâmica do ataque. Sempre há a percepção da "madeira" ressoando e interagindo harmonicamente com o som das cordas. É difícil descrever em palavras, mas nesse vídeo fica claro o momento onde essa mágica aparece com toda a sua glória.

Veja/ouça (num monitor/fone decente) o vídeo e anote sua opinião enquanto ouve cada guitarra: graves, agudos, dinâmica, complexidade... Em seguida compare sua opinião com a de Pat e Robert/Bob Stull. 90% das vezes, minha opinião era a mesma do Bob.

Vamos lá:


Aqui está o que anotei de cada guitarra enquanto ouvia:
1ª: Quase gorda, boa dinâmica, agudos ok mas não são "PAF"
2ª: Equilibrada nas frequências, mas ataque da nota muito dominante (pouca dinâmica)
3ª: Linear demais, muito comprimido, ruim... Tokai?
4ª: Equilíbrio perfeito, dinâmica complexa - melhor até agora...
5ª: Graves embolados, dinâmica prejudicada, Seth Lover?

Já fez a sua fezinha? Vamos ao vídeo com os resultados:


O timbre da Les Paul 58 é extraordinário. Há alguns anos eu talvez não tivesse paciência para apreciá-lo devidamente, mas depois que a gente percebe um timbre desses, não tem mais volta... :)

Um vídeo extra, editado do segundo, com o Doug Fraser explicando como gravou o teste:


:)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Links Úteis: Luthier

          Eu ia postar os links para o luthier Adriano (que fez os corpos de telecaster) no final do último post, mas achei que tava na hora de um update de vários dos meus principais links.
Então, na sequência, os links valiosos com breves comentários:

Primeiro - e não poderia deixar de ser - a minha musa inspiradora, a querida luthier Paula Bifulco, de São Paulo (clique no logo para visitar o site):



Olha que guitarra maravilhosa feita pela Paula:




TANAKA GUITAR TECH (SOROCABA/SP)

Em seguida, meu grande amigo, luthier e excepcional pessoa, Mauro Tanaka, de Sorocaba:

tanakaguitartech@gmail.com Telefone: 15 3021-8399




Entre outras coisas, o Tanaka é autorizado da Buzz Feiten para instalação do infalível "Buzz Feiten Tuning System"
É o tipo do cara que a gente veste a camisa - literalmente!:



ADRIANO RAMOS (BH/MG)

E, pra quem tava perguntando onde eu comprei aqueles corpos de Telecaster, segue o link para o Facebook do luthier Adriano Ramos de Belo Horizonte:


Máquinário CNC, madeiras nacionais e preços justos (só não vou dizer que é barato porque senão ele aumenta :)). Comprei recentemente dois corpos de tele, um clássico e outro Cabronita. É uma mão na roda pra quem quer se aventurar num "monte você mesmo sua guitarra".



Se quiseres fazer uma guitarra com o Adriano usando madeiras importadas, fale com o:
Miguel Cardone, da Musictools ( www.luthierexpress.com ) , vendas@musictools.com.br
ou ligue: (11) 9287-4090. Foi com ele que comprei os blanks de Ash e Alder das minhas Teles project. Além disso, a Music Tools é uma loja de suprimentos para luthier. Todo guitarrista precisa ter a aprender a usar uma ferramenta chamada "Fret Rocker". Postarei sobre ela em breve.
Compre os blanks com o Miguel (faça o download do catálogo em PDF no site) e envie para o Adriano.

O Adriano tem um link no ML, mas para o pessoal do blog, seguem os contatos diretos:
Celular: 31 9711-1642  E-mail: a.rr@globo.com


GADDINI CUSTOM SHOP (SP)

Uma dica do leitor do blog Von Farah: o sogro dele, Elcio Gaddini,  faz ótimas customizações em guitarras. Vi as fotos, achei bem legal e tô aproveitando pra postar:





Facebook da Gaddini Custom Shop (Clique). Luthieria, customizações e reformas de instrumentos, fabricação e personalização de escudos . Contato: gaddinicustomshop@gmail.com


JOÃO VÍTOR (CEARÁ)

Por último, mas chegando atrasado só porque fui pedir autorização dele pra postar, o magnífico trabalho do João Vítor, do Ceará, na montagem, acabamento e customização de guitarras. Foi dele que comprei aquele maravilhoso braço da minha strato preta. O Vítor faz a coisa meio por hobby/paixão como a gente por aqui, mas o trabalho dele de customização é profissional. O logotipo é o mesmo da Fender e não uma cópia barata. Detalhe: ele só coloca o logo em braços Fender e/ou autorizados da Fender.  É o nosso "Bill Nash", hehehe...

Algumas guitarras montadas e customizadas por ele:

Lindas! Com a mesma (se não mais) qualidade de uma Fender americana e bem mais baratas! Como o Vítor só utiliza partes e peças autorizadas Fender, as guitarras são literalmente "Fender", só que montadas no Ceará! :)

Acesse o link para o álbum dele e divirta-se: https://picasaweb.google.com/107385410797740048367

Olhem o absurdo do acabamento dos braços e headstock (com Tru-Oil, excelente opção):

Normalmente ele vende os braços prontos no ML, mas é só acessar direto pelo e-mail pra dispensar o intermediário :)
          Existem inúmeros outros luthiers fantásticos, mas o objetivo do post não é listar luthier.
Aliás, ainda não sei porque os luthiers brasileiros não têm um site com a listagem de contato. Eles precisam fazer uma associação ou coisa parecida. Sei que isso no Brasil quase sempre vira panelinha, mas não custa tentar, né?

PS: Se alguém quiser acrescentar o link de seu luthier, conhecido e capacitado, fique à vontade e utilize o espaço dos comentários. Por favor, especifique também a cidade e todos os contatos possíveis.

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Porto Alegre:

Fone (51)3331.3234 ou (51)3061.3247
contato@guitargarage.com.br
De Segunda à Sexta das 13:30hs às 19:00hs
Rua Miguel Tostes, 870 | Bairro Rio Branco | CEP 90430-060 | Porto Alegre/RS

http://www.guitargarage.com.br/novo/portal/php/home.php

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Ourinhos (SP):

Luthier Adriano Batista
Consertos e Pinturas de instrumentos de Cordas: Guitarra, Violão, Viola, Cavaquinho,Baixo...
(14) 9706-1245 ou 8210-5723
e-mail: adrianoguitarra@hotmail.com

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domingo, 21 de abril de 2013

La Cabronita Custom Golden Leaf

       


         Fanático que sou por Telecasters, não poderia deixar passar em branco a nova versão denominada "La Cabronita" da Fender (as traduções do espanhol divergem, mas à princípio seria uma "rapariga sem pai"... :) ). Iniciou como uma linha exclusiva da Fender Custom Shop, mas agora há uma versão mais barata feita no México.
La Cabronita é uma Telecaster clássica mas com dois captadores humbuckers do tipo Filtertron Gretsch. Geralmente elas vêm com um modelo (Fidelitron) que é uma variação entre o Filtertron clássico que equipava boa parte das Gretsch dos anos 50 e os modernos TV Jones (Thomas V. Jones), algo mais fortes e modernos.

O gatilho para a montagem de uma Cabronita foi uma oferta do meu amigo do fórum da GP, o Yanko, que me conseguiu um corpo de Cabronita USA feito de uma madeira muito leve e macia, chamada de "Sugar Pine". Como eu sabia que muitos experts em Telecasters estavam fazendo Cabronitas com essa madeira, resolvi comprar no ebay. O Sugar Pine (uma variação do nosso Pinus) é levíssimo, de baixa densidade e muito macio, bem mais do que o brasileiríssimo Marupá.
Por que não tentei comprar uma Mexicana? Porque embora curioso pra conhecer e tocar uma Cabronita, nunca botei muita fé (na verdade não gosto mesmo) em Teles com humbuckers, mas os Filtertrons têm uma sonoridade única e talvez...

O corpo chegou com alguns pequenos defeitos, ranhuras provocadas pelo corte CNC na madeira muito frágil. Nem quis perder tempo (pra variar) e reclamar com o fornecedor americano e usei um pouco de massa de madeira para nivelamento. A Cabronita tem várias peças exclusivas, meio caras (pra nós, pobres brasileiros que temos que pagar os absurdos impostos de importação) e difíceis de encontrar, a começar pelos Filtertrons e TV Jones. passando pela ponte hardtail, escudo e placa traseira de controle.

Bem, toquei o barco e o primeiro passo era decidir a cor. Preta como a maioria? Humm... Eu estava a tempos querendo testar uma técnica antiga que utiliza folhas finíssimas de ouro (golden leaf) que deixa a superfície verdadeiramente dourada, com infinitas variações de brilho e cor em cada ângulo que olhamos.

Eu tinha aqui em casa vários pacotes de Golden Leaf da década de 40 e 50, que estavam numa caixa (de charutos Jamaicanos) dessa época, obtida em Nova York em 2001. A caixa em si é uma volta no tempo: também tinha fotos originais, fusíveis e até um compasso. Mãos à obra...


Golden Leaf no top e tinta dourada no restante, tudo coberto com algumas finas camadas de verniz.
O mais chato foram as adaptações: as cavidades eram muito rasas para os Filtertrons (e eu não tenho tupia - tive que me virar, como sempre, com a Dremel) e eles são presos por parafusos longos direto no corpo. A regulagem da altura é obtida por pressão sobre uma espuma retrátil colocada embaixo. Até acertar o jogo de pressão, é foda.

Mas acabou ficando pronta (braço licenciado Fender da Mighty Mite). Quando fui tocar, o corpo de Sugar Pine mostrou suas fraquezas (já imaginava): nem de longe tem a ressonância do alder ou ash, mas como os captadores são Filtertrons, depois de alguns ajustes, consegui tirar um som mais do que decente.

Nem pensar em colocar um escudo por cima desse dourado verdadeiro... :)

         Descobri que Filtertrons são, mais do que qualquer humbucker, extremamente responsivos aos ajustes de altura do corpo do captador e dos parafusos das bobinas. Ambas as bobinas têm parafusos ajustáveis e conseguimos mudar muito a resposta de cada corda fazendo um jogo entre a diferença de altura dos parafusos das duas bobinas e deles em relação às cordas. MUITO interessante...
No atual momento, até entendo porque muita gente tá usando corpos de sugar Pine para Cabronitas (e até Teles clássicas). Depois de duas semanas tocando com ela, posso garantir que aprendi a gostar do som, principalmente dos médios do Tron da ponte. Lindos.

Por via das dúvidas, e agora já conhecendo melhor o Marupá, encomendei um corpo de Cabronita de Marupá (25-40% mais pesado que o Sugar Pine) com o luthier Adriano em Belo Horizonte. Especifiquei as cavidades (agora com a profundidade correta) e ele programou na CNC. O corpo já chegou e é lindo, peça única, muito bem feito. 200 reais, minha gente... No Brasil tem coisa legal, é só procurar.

Se conseguir mais um par de Trons ou TV Jones, monto outra, só por curiosidade :)






quarta-feira, 17 de abril de 2013

Junção braço e corpo de guitarra: tipos.


          Prometi que faria um post sobre esse assunto e já tinha separado várias coisas, mas ontem me deparei com um excelente artigo do luthier Samuel Soares e seria redundância fazer outro. Inclusive a fonte por ele citada (Dave Hunter - GP 2008) é a mesma que eu também citaria, além do Henry Ho (Raio X Da Sua Guitarra - GP 2002).
Segue o link para o artigo do Samuel Soares: "
"Dissecando a guitarra: Parte VI – Junção braço/corpo"

Além das junções citadas, existem outras (geralmente variações) menos comuns. 
Se sacas bem o inglês, recomendo também uma lida nesse artigo do polêmico luthier americano Ed Roman, que adora queimar o filme da Gibson... :)

Não é preguiça, não... O artigo do Samuel Soares/Dave Hunter é bem completo e fácil de entender.

Lembro sempre que não existe um tipo de junção superior/definitiva. Cada uma influencia de forma característica no timbre e todas têm o seu valor. O timbre clássico das Fender deve-se em grande parte à "deficiência" (ou eficiência, dependendo do ângulo que analisamos) da junção parafusada. Tanto é verdade que teles e stratos de braço colado nunca vingaram. O oposto ocorre com as Gibsons.

E, independente do tipo de junção, a sua qualidade sempre deve ser medida pelo grau de contato entre as madeiras do braço e corpo. "Tight"/apertada, justa, como dizem os americanos. Quando o braço encaixa no tróculo como uma "luva", firme e justa, podemos usar até cuspe para colar que a transmissão das vibrações sempre será boa, sem perdas... :) 

sábado, 6 de abril de 2013

Me engana que eu gosto! A invasão das guitarras chinesas

          Eu tenho várias coisas na manga pra postar - tipos de junção braço/corpo, uma série de dicas grátis do meu amigo luthier Inaldo... Mas depois que li a excelente coluna do mestre luthier Jol Dantzig na revista Premier Guitar deste mês (clique para ler) e sua repercussão (clique para ler), resolvi falar justamente sobre isso: até que ponto os grandes (e médios e de boutique) fabricantes de guitarra estão terceirizando a sua produção no oriente (leia: China, Coréia, Indonésia, Filipinas, India, etc.)?

JOL DANTZIG

Em sua coluna, o luthier Jol Dantzig, um dos criadores da Hamer Guitars, menciona que recebe constantemente "ofertas" de grandes fábricas chinesas para produzir guitarras com eles. Eles enviam fotos de pilhas enormes de guitarras de várias marcas conhecidas, lado a lado. Além disso, listam os nomes das empresas para as quais produzem guitarras e baixos.
Jol Dantzig, vendo a lista dos clientes desses chineses, diz: "Ei! Eu pensava que esses caras realmente faziam suas guitarras..."


Quem são "esses caras"? Eu fico pensando... Além dos de praxe, Gibson, Fender, PRS, com suas segundas linhas, será que Fano, Framus, Reverend, Godin, Music Man, D'Angelico, GJ (nova Grover Jackson), Parker, G&L, etc., realmente fazem suas guitarras? Até o nosso velho mestre Tagima sucumbiu à tentação e tem uma linha chinesa. Ontem fui na loja Mensageiro Musical e vi uma nova guitarra da Tagima, modelo Les Paul. Extremamente parecida (peso, detalhes, acabamento, braço) com as Condor CLP. Vi um violão Giannini e outro Strinberg idênticos, só mudavam os logos. TUDO chinês e se bobear, da mesma fábrica.
Pra completar o devaneio patético, o violão Giannini tinha problemas de afinação - parece que eles não conseguem fazer um violão bom nem na china - PQP!

Enfim, virou essa palhaçada que no Brasil beira o ridículo. Tem "fábricas" aqui que não apertam um parafuso sequer. A maioria consiste num escritório de importação e um depósito pra receber a carga chinesa.

Nunca engoli caras como o Bill Nash. Putz, ele só monta e finaliza. Tudo bem que os fornecedores são americanos e bons, mas isso eu também faço aqui em casa. O foda mesmo é ver uma Telecaster montada por ele ser vendida na Two Tone de São Paulo por 7 mil reais.

Eu posso desenhar um modelo de guitarra, inventar algumas alterações simples mas manter grande parte do visual de alguma guitarra clássica, entrar em contato com uma fábrica qualquer na china (como a Shandong Huayun, da foto abaixo) e, com um CNPJ nas mãos, criar uma marca própria. Coloco um anúncio na Guitar Player Brasil e... pronto, virei um "fabricante nacional".
O Jol Dantzig acabou de postar que o pessoal (os montadores de guitarra disfarçados de produtores) já começou a reclamar do que ele postou. Ele devia é ter dado os nomes!


PS1: Não estou criticando a qualidade das guitarras chinesas. As top de linha são muito bem feitas e o processo de automação/CNC nos dias de hoje é quase uma garantia de tocabilidade. Mesmo guitarras vendidas para os nossos "fabricantes nacionais", que às vezes custam menos de 100 dólares completas, podem ser viáveis e úteis para iniciantes. Vários luthiers e pessoas do meio (Tim Shaw, Jol Dantzig, J. T. Riboloff, etc.) já mencionaram que o oriente tem capacidade de produzir excelentes guitarras.
A questão aí é que alguns fabricantes estão omitindo a origem de suas guitarras. Como consumidores, temos direito à essa informação.

terça-feira, 19 de março de 2013

Fender Custom Shop 56 Stratocaster Closet Classic

          Meu grande amigo e guitarrista Faraco aqui de Floripa trouxe essa guitarra pra eu dar uma olhada. Essa maravilha foi comprada (se não me engano) na Two Tone (leia: cara, coisa de 5 dígitos) em SP.
Pra quem não sabe, a Fender volta e meia inventa alguns nomes curiosos para suas linhas Custom Shop. "Closet Classic" seria uma guitarra antiga (no caso 1956) que pouco foi usada e ficou guardada no "armário". Eles imaginam como seria uma guitarra dessas, pegam as especificações de 1956 e...


         Precisava tocar essa guitarra, top das tops,  pra ter certeza de que stratos com escalas de maple e jacarandá/rosewood são de fato dois bichos distintos.
O maple soa mais macio e o rosewood, mais claro, com mais ataque/força. 90% das vezes percebi essas diferenças.
Numa guitarra desequilibrada (corpo ruim, desencontro de ressonâncias entre corpo e braço, etc.), o maple soará sem vida/presença e sustain e o rosewood poderá soar agudo demais, até sibilante.
Strato é f***! Uma coisinha de nada pra lá e ela é magra e estridente. Um pentelho pra cá e os médio graves embaralham tudo e ela fica sem graça, meio morta. Bem... Tele é ainda mais complicada - não tem os extremos da sua irmã mais nova, porém a zona de equilíbrio do seu timbre é ainda mais estreita.

Posso me considerar um cara realizado nesses dois quesitos, pois sempre tive teles excelentes e tenho duas stratos que me satisfazem 100%. As duas com escala de rosewood. Por alguma razão, não sou fanático pelo som do maple, mas essa Closet Classic quase me fez mudar de ideia. Quase. :)


Percebam na foto acima o craquelado do acabamento de nitrocelulose, escudo de apenas uma camada e ajuste posterior do tensor - tudo correto para a época. No case tinha a chave original de 3 posições - atualmente ela está com a de cinco.
Captadores com uma sonoridade vintage (óbvio), bem semelhantes aos CS57/62 e sem o ataque de médios arrogante dos CS54, meus favoritos. Braço GORDO (e eu achava o da SX gordo), pegada cheia, pra mãos pesadas. Nas especificações (essa guitarra me parece ser de 2001) mais recentes, o braço é citado como "soft V", mas esse é um "C" largo.

Não deu tempo de gravar nada, mas achei um vídeo da Two Tone onde uma guitarra igual a essa é demonstrada (outro guitarrista brasileiro que prefere mostrar mais a si do que o instrumento). Talvez até seja a mesma:


O som é bem esse. Pena que o cara não tocou outros grooves, bases e estilos.
Como toda Custom Shop, madeiras selecionadíssimas. Leve e ressonante.
Excelente guitarra, excelente sonoridade. Mas fiquei feliz em constatar que as minhas duas stratos ainda me satisfazem 100%, ou seja, o botão de emergência da GAS não foi disparado... :)





terça-feira, 12 de março de 2013

Onde está o Wally? - Fender Sonic Blue 60's

          Com essa história da Tagima, além de outros pequenos perrengues com guitarras chinesas, ficou óbvio pra mim que o ideal, se eu não quiser gastar muito, é comprar tudo separadamente e montar eu mesmo.
Obviamente foi necessário adquirir conhecimento e sempre que aprendo algo, passo adiante aqui no blog.

Recentemente resolvi montar duas guitarras seguindo esse princípio. Sempre quis uma strato na cor "Sonic Blue" (tipo azul celeste). Pesquisei na internet, ppte no ML, e encontrei um corpo de Marupá por 200 reais (na loja virtual do Érico Malagoli - captadores.com.br). A primeira lei de Murphy pegou pesado: o corpo chegou com uma rachadura que ia do tróculo (pior lugar possível) até quase a metade... Bem, depois eu conto essa história, mas o objetivo era o post - colei com Superciano e comecei o trabalho. Queria exercitar o processo de envelhecimento artificial (Relic), pois já havia conseguido bons resultados anteriormente e dessa vez a ideia era competir com a Fender - não quero passar por pretencioso, mas já vi alguns relics muito ruins deles. A maioria entretanto, é muito bem feita.

Seguem várias fotos de stratos Fender Custom Shop Relic, custando entre 2.500 e 4.500 dólares. No meio delas está a minha (que custou no máximo 450 reais) e uma original, de 1964 (essa obviamente, custa uma fortuna).

Vamos ver quem mata a charada e encontra o Wally de marupá e... Qual será a original de 1964?
Ao posicionar o mouse sobre a foto, o nome (com identificação) dela vai aparecer no link lá embaixo - por favor, não olhe! :)
(Quem conhece bem o blog vai descobrir qual é a minha por um detalhe pessoal, mas tô contando com a distração de vocês :) )








São 6 guitarras - ao dar sua opinião, considere uma numeração, de cima para baixo, de 1 a 6.
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13/03/2013:

         Já que a maioria acertou - e alguns com muita propriedade e conhecimento de causa - vamos lá:
A minha é a 6... Claro, a indefectível ausência do primeiro botão me entregou legal... O Petri percebeu que as bordas deveriam ser mais arredondadas (preguiça minha). O Rodrigo tá correto, esse "Azul Celeste" da Resicolor bate mais com o "Daphne Blue":
O Fernando lembrou bem a questão do tensor - todas teriam que ter acesso por trás. E a Thaís (bem vinda ao blog - já tava achando que isso aqui era o clube do Bolinha :) ) foi esperta ao chamar a atenção para o padrão dos parafusos - só faltou organizar as datas :)
Alguns detalhes técnicos/históricos:
  • A Fender mudou para escudos de 3 camadas por volta de julho de 1959 (quando também passou de 8 para 11 parafusos de fixação). 
  • Em janeiro de 1965, o plástico ABS substituiu o antigo material à base de Celulóide, mas o ABS já era utilizado nos escudos de camada única. Nunca existiu escudo de "bakelite" (poliestireno), mas as capinhas e botões eram desse material.  
  • À  partir de 1958, a escala passou a ser predominantemente de Rosewood (brasileiro até 66, depois indiano) e durante a década de 60, escalas de maple apenas por encomenda direta na fábrica. 
  • Em meados de 1956, TODAS as stratos, exceto as "blonde" passaram a ter corpo de alder.
  • Até 1967: Nitrocelulose.
  • Em 1960 a Fender introduziu 14 cores extras, entre elas, as 3 da imagem acima.
Assim, aquela com braço de maple e escudo single layer com 8 parafusos (imagem 4: Custom Shop 56 Heavy Relic: 4.000 Euros) é uma impossibilidade histórica.
A guitarra real de 1964 é a "5", mas o escudo deveria ser mais amarelado ou esverdeado (detalhe também percebido pelo Rodrigo). Até o final de 1964, as 3 camadas eram de celulóide, que não tinha esse aspecto branco "OMO". Conjecturo que talvez ela seja do final de 64 e a Fender já havia iniciado o uso do ABS/Vinil. Ou o dono trocou o escudo em algum momento depois de 1964.

Interessante ressaltar que a maioria das sonic blue originais da década de 60 que pesquisei tinham paradoxalmente pouco "relic".
Mas aqui tem uma foto da Sonic Blue 1961 de Ike Turner (a foto é dos anos sessenta também) já bem "baleada". Coitada da guitarra - apanhou mais do que a Tina Turner :)

Achei linda a relic "3" (Custom Shop: 4.600 dólares) e horrível a "2" (também Custom Shop: 3640 dólares). Lixar as bordas e deixá-las com esse aspecto regular e com pouca randomização não é relicagem. Parece coisa de amador.
Deixo bem claro que pra mim, fazendo em casa, sem politriz e com spray em lata, é mais fácil o acabamento "relic" que o ultra brilhante e perfeito. Não sou nem muito fã de relicagem, por sinal.

Bem, voltando à strato "classe econômica", ela é hardtail. O corpo não tem a cavidade para o tremolo. Melhor assim, já que a madeira é Marupá. A idéia era fazer uma coisa bem caseira no acabamento do corpo, por isso usei uma lata de tinta à óleo Resicolor "Azul Celeste" e um rolinho de lã (espuma não é bom):

 Nunca pintei com rolo antes (nem parede), mas no processo descobri que é melhor diluir um pouco mais (escorre mais, mas dá pra controlar se prestarmos atenção, ppte nas bordas inferiores) nas primeiras demãos. Acho que foram umas 4 ou 5 passadas com algumas horas de intervalo.

O corpo veio rachado e eu não estava botando muita fé nessa ideia, então não anotei os detalhes do processo, mas é basicamente tinta com rolo, lixa 360 e 600, relicagem - aí usei até cinza de cigarro + corantes amarelo e ocre + óleos+ pó, verniz, lixada irregular e aleatória, mais relic e corante amarelo, verniz novamente, lixas 600 e 1200 com passadas uniformes e um leve polimento final com Grand Prix automotiva. A parte do rolo é meio demorada por causa da tempo de secagem. E olhe que eu procurei tinta spray "azul celeste" - pqp!
Poderia ter misturado um pouco de branco para o azul ficar mais "Sonic" e menos "Daphne". Preguiça de voltar na loja :)


O braço é de uma RX20 (headstock modificado), extremamente confortável com trastes bem nivelados e frequência de ressonância em Ré (D3), que é baixa, mais grave. O corpo estava bem seco e mais agudo que o esperado do Marupá, por isso os dois fecharam bem no timbre final. Coloquei tarraxas chinesas com trava (sim com trava) recentemente compradas no ebay  por 17 dólares (não recomendo-as). A ponte é uma hardtail Condor. Os saddles são de zinco mas vou colocar de aço, pois o timbre dessa guitarra me agradou demais. O Marupá é relativamente claro e articulado, com mais médios-graves que o alder e até o ash. Soa mais "na frente" e mais forte. A ausência da ponte - elemento crucial da sonoridade strato - torna o timbre algo híbrido de strato e tele. Captadores do braço e meio são Rosar Fullerton (timbre entre o Fender CS 54 e CS 57). O da ponte, um Rosar Custom com 6,7k e fio enamel 42 - cara de Telecaster! :)

A sonoridade dela foi uma surpresa muito agradável, tanto que vai receber tarraxas mais decentes e carrinhos de aço :)

E o corpo rachado?
Chegou assim:
Putz! Mandei e-mail para o Érico Malagoli, que redirecionou para o fabricante (não vou colocar o link agora), muito educado e cordato, que ficou de enviar um outro mas, por alguma razão que me foge à razão, não fez mais contato. Let it be.

Podem falar o que quiserem dos chineses, mas até hoje recebi tudo que comprei deles conforme descrito nos anúncios. Já aqui no Brasil...

PS: E, é claro, depois disso tudo, essa guitarra já tem um nome: Wally. E sobrenome:"Wally de Marupá" KKKK!!