segunda-feira, 27 de julho de 2015

Trocando Tarraxas Kluson (Vintage Style) vs Grover (Modern Style)

Oscar Isaka Jr

          Trocar tarraxas já virou prática comum do cotidiano dos guitarristas. Sempre que compramos uma nova guitarra já olhamos o que podemos "melhorar" alguma coisa, seja na parte funcional ou meramente estética e as tarraxas são sempre um dos primeiros alvos de upgrade, pois existem vários modelos de excelente qualidade e custo relativamente acessível. 



         Pois bem, nesse final de semana estava testando alguns timbres com uma Les Paul aqui em casa e estava notando que a afinação não estabilizava. Afinava, tocava um pouco e bastava um único bend ou uma palhetada mais forte e pronto, a coisa já desandava. Eu estava até meio intrigado pois as tarraxas eram Gotoh com trava e isso não deveria estar acontecendo já que as cordas eram novas, nut lubrificado e tudo mais que manda a cartilha, mas algo ainda estava errado.
Olhando um pouco mais perto notei que em uma das tarraxas havia uma "folga" no buraco, como na foto abaixo:

Bucha da tarracha com folga
         Resolvi então retirar as tarraxas pra verificar se havia algo errado na instalação. Quando o fiz encontrei o que eu estava suspeitando, enquanto a furação das tarraxas dessa guitarra era para acomodar tarraxas tipo Grover modernas (10 mm de diâmetro), foram instaladas tarraxas do modelo Kluson da Gotoh, que apesar de serem com travas, têm especificações para o buraco da Kluson vintage tradicional com aproximadamente 9 mm de diâmetro.
Estava bem claro o motivo da instabilidade da afinação, pois o post da tarraxa não fica 100% firme e apoiado com a pressão das cordas. 

Comparação das medidas

      É uma diferença relativamente óbvia, e fica até difícil de acreditar que isso passaria desapercebido por quem instalou uma vez que as buchas da Kluson ficaria frouxa e cairia fora do furo, e realmente a pessoa que instalou percebeu isso e para remediar a situação enrolou pedacinhos de LIXA em torno das buchas a fim de preencher a folga.
A famosa "gambiarra" rsrs. Em alguns casos ela funciona e muito bem, como mostrado várias vezes aqui mesmo no blog, mas as vezes ela compromete o funcionamento correto da coisa toda. 


         Mas então eu não poderia ter uma tarraxa tipo Kluson em uma Guitarra previamente furada para Grover sem ter que gastar os tubos mandando para um luthier tapar os furos e refaze-los com o tamanho adequado? Claro que pode pequeno gafanhoto. :-) Existem buchas próprias para essa adaptação, que possuem todas as medidas para uma tarraxa Kluson/9mm, mas têm maior diâmetro para evitar folgas em um buraco feito para Grovers/10mm. A StewMac tem essas buchas (Clique aqui) e a GuitarFetish também (Clique Aqui). Ambas vem em jogos com as 6 unidades que podem ser usadas tanto para modelos com 6 em linha como 3 x 3.
Como eu tinha um jogo dessas buchinhas aqui, fiz a comparação com a "adaptação". Notem as diferenças de medidas. Isso, claro, sem contar que um pedaço de lixa não tem a mesma resistência mecânica que o metal usado nas buchinhas e a chance dele ceder com o tempo aumentando o problema é ainda maior.

Original, original + lixa e abaixo, a adaptadora
         A lixa até aumentou o diâmetro de maneira que as buchinhas originais não caíssem do buraco, mas não conferem a resistência necessária para estabilizar o eixo da tarraxa. Instalei as buchinhas adaptadoras na guitarra no lugar das "antigas + lixa, dei uma ajustada no tensor e nas oitavas e pronto, a Les Paul estabilizou e estava pronta pra guerra. Não teve mais nenhum problema de afinação. 


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Indutor de Wah Smithers Audio - Equipo de Ouro LPG

Oscar Isaka Jr



        Há algum tempo conversei com o Leandro da Smithers Audio (confira aqui o post) e dentre os magníficos transformadores que ele projeta e fabrica estava o pequenino indutor para pedais de WahWah. 



         No meio da conversa o Leandro me explicou o conceito do indutor da Smithers, que era de ter 3 "taps" com diferentes indutâncias para que você possa instalar no seu pedal de Wah e assim obter, através de uma chave, 3 diferentes tipos de "timbres". Segue a lista dos valores do Wah Smithers na foto abaixo. 


Para referência, o Red Fasel tem perto de 620mh e o Yellow 450mh.


     Eu achei a ideia simplesmente fantástica e já me agilizei para pode montar um Wah e experimentar o indutor. Aproveitei uma carcaça de um Wah VOX Chinês, comprei um potenciômetro da Dunlop HotPotzII específico para o propósito e com a placa da MadBean Pedals montei o circuito do Wheener Wah II que nada mais é que o famoso Clyde McCoy dos anos 60. O resultado ficou tão legal que resolvi gravar uma demo rápida pra mostrar os 3 valores e como estava com um famoso Fulltone Clyde Deluxe aqui fiz uma comparação.

Esse indutor pode ser instalado em qualquer WahWah seja Cry Baby ou Vox, somente sendo necessária uma chave rotativa para seleção. O valor do capacitor de filtro que eu usei nessa demo foi 10nf, que é o valor clássico do Clyde também. 

Segue o vídeo:



       O indutor Smithers, assim como os transformadores da marca, é sem dúvida mais um dos produtos de qualidade internacional fabricados aqui no Brasil e merece o nosso selo de Qualidade Ouro LPG, com louvor. Sortudos dos que ganharam o seu no sorteio que fizemos quando postamos sobre a Smihters :-)! 

         Quer dar uma tunada no seu Wah? Entre em contato com o Leandro para obter seu Indutor e faça ou mande para que alguém o instale para você. Satisfação garantida!!!!!

Site da Smithers (clique)
Contato:
Smithers Audio
www.smithersaudio.com.br
www.facebook.com/smithersaudio

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Creation FD - Pedalboard Brazuca! :-)

Oscar Isaka Jr


         Assim que eu larguei minha finada RP2000 e resolvi me aventurar no mundo dos pedais, logo vi que não ia dar pra ficar montando e desmontando o set cada vez que ia tocar. Até usei o case da antiga pedaleira por um tempo mas a coisa era tão ruim e mal organizada que eu tinha até preguiça de usar os pedais por conta do trambolho que aquilo era. 

Creation FD Standard
Comecei a pesquisar as opções que tínhamos e, claro, esbarrei na PedalTrain. Porém o preço era tão absurdamente proibitivo na época que nem cogitei, mas o meu amigo Fernando (da loja Musica World) me apresentou à Creation FD. Ele tinha um board que lembrava muito o Pedal Train que eu via na internet e tinha praticamente os mesmos atributos. Lembro que até achei que era um board importado mas quando o Fernando me disse que era uma empresa aqui mesmo de São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba) eu quase nem acreditei. 




Isso já faz quase 3 anos e desde então uso os boards da Creation quase que exclusivamente (já tive 3 modelos). Pude assistir a grande aceitação do público guitarrístico brasileiro e a explosão da marca em nível nacional.

Modelo Fiber

Também através do Fernando conheci o Fabiano, sócio-proprietário da Creation, e combinei com ele de gravarmos uma pequena entrevista dando continuidade à nossa série de apresentação de fabricantes nacionais. 




Creation NovaBoard RT
         Desde então já tive 3 modelos de boards da Creation. É incrível como desde o pequenino Nano Board (abaixo) como no grande Marisco Board sempre tem um modelo que é do tamanho que você precisa.

O Nova Board que o Fabiano comentou no vídeo é muito bacana pois tem um compartimento interno onde vc pode colocar mais pedais e acioná-los por um switcher ou ainda usar pra colocar cabos e outras coisas com acesso super rápido e prático. 






         O grande guitarrista e endorser da Creation Kleber Kashima fez um review do modelo AM1 com detalhes no vídeo abaixo. Todos os boards da Creation têm essas mesmas funcionalidades e alguns opcionais ainda pra escolher de acordo com o seu gosto, como Led, Jacks, Fontes e etc.


      















         Se mesmo assim vc não achar, a Creation tem um serviço de Custom Shop e desenvolve o Board para suas necessidades, desde tamanhos e formatos variados, até se você precisar embutir aquele foot switch grande do seu amplificador valvulado com 32 canais. Não tem problema: é só contactar o Fabiano e a Creation desenvolve o board de acordo com a sua necessidade.
Foi exatamente o que  guitarrista Filipe Milani de Souza fez e o resultado pode ser conferido abaixo. O board dele ficou tão bom, que foi exposto na ExpoMusic. Notem o Foot Switch do Mark V e um Bogner Extasy Red embutidos.




         Sempre falamos aqui no Blog que nunca estivemos tão bem servidos de produtos nacionais de excelente qualidade como nos últimos anos e no caso de Pedal Boards não é diferente. Falo com propriedade que a Creation hoje não deixa NADA a desejar à PedalTrain e outras grandes do mercado mundial em qualidade e funcionalidade, isso sem mencionar a possibilidade de customização, modelos e opcionais. A quantidade impressionante de usuários e endorsers da marca atesta isso. 

        Vida londa à Creation e que o nosso mercado continue a nos brindar com gente como o Fabiano, Sérgio Rosar, Érico Malagoli, Pedrone, Manara, e muitos outros que acreditam no potencial do mercado nacional sempre com produtos de qualidade extrema.


Contato:



terça-feira, 23 de junho de 2015

1971: Rolling Stones, Deep Purple e Led Zeppelin

PauloMay

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Portão de entrada da Villa Nellcote, no sul da França, onde os Stones gravaram o Exille On Main Street.
   
         Em 1971 eu tinha 10 anos e não consigo me lembrar se alguma coisa diferente aconteceu nesse período. De fato, aconteceu não aqui no Brasil, mas na Europa (França, Suíça e Inglaterra): 3 discos que hoje são clássicos absolutos, venerados por roqueiros de todas as idades, foram gravados nesse ano.
O que havia em comum entre eles? Todos foram gravados com a "Unidade Móvel de Gravação dos Rolling Stones", um caminhão adaptado para conter um estúdio - top de linha na época.
 

Por volta de 1974/75, já entrando na adolescência, comprei esse 3 discos e até hoje os ouço com prazer, deslumbre e devoção. São eles:


        Alguma dúvida? Gravações lendárias, quase mágicas. Nenhuma feita em estúdio profissional. Todas de 1971, todas cercadas de mistérios e coincidências... Esses álbuns são referências, agora eternas, do rock clássico de extrema qualidade.

Sou fã de carteirinha dos Stones e o álbum "Exille" (com Sticky Fingers um pentelho atrás) sempre foi o meu preferido. Nesse disco (duplo), os Rolling Stones estão no auge, traduzindo à sua maneira, sem compromisso, as influências rock, blues, country e soul. Vários fatores, alguns fortuitos e outros nem tanto, contribuíram para a brutal honestidade e pureza desse disco. Não vou enumerá-los aqui pra não encher o saco do leitor que não é tão chegado nos Stones, mas um dos principais fatores foi a maneira e o local onde o disco foi gravado.

        Em 1971 os Stones abandonaram a Inglaterra para fugir dos absurdos impostos britânicos. Como tinham que gravar um disco e Keith Richards havia alugado uma antiga mansão chamada Villa Nellcote (em Villefranche-sur-Mer, no sul da França), optaram por gravá-lo lá.

Obs: Recentemente descobri que meu cunhado nasceu em Nice (bem perto de Villefranche) e viveu esse período na região. Ele me falou do clima, cultura e peculiaridades dessa parte do sul da França, refúgio de artistas, famosos e milionários há décadas... Tudo MUITO interessante.

Nellcote

         Sticky Fingers já havia sido parcialmente gravado, com sucesso, na casa de campo de Mick Jagger (Stargroves) na Inglaterra, utilizando a unidade móvel da banda. Aliás, muita gente gravou na mansão de Jagger naquele período: Who, Faces, Led Zeppelin (Houses Of The Holy, ppte), etc. Segundo o famoso engenheiro de áudio Eddie Kramer, o ambiente em Stargroves era maravilhoso e a acústica natural, fantástica.

 Stargroves (Inglaterra)


 Stargroves

 Fácil, fácil perder o foco aqui :) Eu estava em 1971, na França... Mas antes de ir para Nellcote, o caminhão dos Stones foi gravar o Led Zeppelin IV em outra casa antiga (1795) da Inglaterra, Headley Grange:

Headley Grange (Led Zeppelin III e IV)

O famoso som de bateria do John Bonham nasceu lá e foi gravado com 3 (talvez 2) microfones por Andy Johns perto daquela escadaria da foto. Em Headley Grange foram gravados o Led Zeppelin III e IV. Page, conhecido como "Led Wallet" estava economizando e não quis alugar Stargroves nessa época - Headley era mais barata... :)

Stairway To Heaven: Jimmy Page visita Headley Grange e a famosa escadaria.

        Finalmente voltamos para Nellcote, uma antiga mansão à beira de um penhasco, construída em 1890 por um banqueiro americano e quartel general da Gestapo durante a ocupação francesa na segunda guerra mundial. O local escolhido para gravar foi o porão (em 1971 ainda havia suásticas pintadas nas paredes), úmido e quase insuportavelmente quente (ouça "Ventilator Blues" pra ter uma ideia). O caminhão (ligado clandestinamente à rede elétrica) ficava do lado de fora e os cabos desciam até o porão:


         Para fãs dos Rolling Stones como eu, Nellcote (atualmente propriedade de um milionário russo) é um monumento, um ícone. Não apenas pelos Stones - ela representa um período no tempo que provavelmente nunca mais vai se repetir em termos musicais e culturais.
Já li vários livros, reportagens e artigos sobre a época, onde o conceito "Sex, Drugs and Rock and Roll" aplica-se literalmente. 1971 estava na ressaca do movimento hippie/flower power, expurgado pelos próprios Stones em Altamont.
As drogas, cada vez mais pesadas, já haviam levado Hendrix, Joplin e Morrison (sem falar no Brian Jones). Especificamente, a heroína, da qual Keith tanto dependia (para compor inclusive) era obtida de várias formas, inicialmente através do "personal drug dealer" de Keith, Tony Sanchez, depois com os próprios traficantes da região.

AS GUITARRAS DE NELLCOTE

...E foram esses traficantes que provavelmente roubaram os 11 instrumentos que estavam em Nellcote. Imagine que facilidade: todo mundo drogado, os caras já frequentavam a casa... Era só entrar e pegar. Entre as famosas "Guitarras de Nellcote" estavam: Dan Armstrong de plexiglass, Gibson ES-355 de 1959, Gibson Flying V (58?), Gibson ES-330, Les Paul Custom 1959, Les Paul Bigsby 1959, 2 Gibson Hummingbirds and um Fender Jazz Bass. Um saxofone preto do Bobby Keys também foi roubado. Até hoje ninguém sabe com certeza quais guitarras foram roubadas e quais foram recuperadas algum tempo depois. Numa entrevista recente Keith diz que pegaram o "cara" e ele recuperou a maioria delas.
Dá pra ver algumas nessas fotos:


         Ainda se discute qual Les Paul 59 foi roubada - se a de Mick Taylor (aquela famosa com Bigsby que foi comprada do próprio Keith Richards) ou uma outra 59 que acabou caindo nas mãos de Taylor de qualquer forma. Essa segunda eu não acredito que seja porque há algumas fotos de Keith fazendo overdubs de Exille em Los Angeles com ela. Um flame bem evidente e característico ("Claw/garra") na região central superior, entre os dois captadores, a identifica:


         Conhecida como "The Claw" (existe outra The Claw famosa, SN 9-1953, que pertenceu a Tom Wittrock). Foi mais tocada por Keith Richards, mas acabou ficando com Mick Taylor. Aparentemente, ele a vendeu em Londres no início dos anos 80, provavelmente em 1982.
Atualmente é mais conhecida como "Exile Burst", mas é bom lembrar que ela provavelmente não foi roubada, embora tenha sido de fato usada nas sessões de Exile.
Abaixo, um vídeo da Exile Burst/The Claw em 2014, tocada por Phil Harris (colecionador, guitarrista, mas não o dono dela):

Exile Burst / The Claw em 2014


A Les Paul 59 com Bigsby, bem mais famosa, foi tocada por Keith, Taylor, Clapton e Page:
A KEITHBURST:

 Les Paul 59 com Bigsby: "KEITHBURST"

          Keith Richards comprou-a em 1962 ou 1963. Originalmente, foi comprada em 1961 na Farmers Music Store em Luton, no Reino Unido, por John Bowen  (guitarista da banda Mike Dean and the Kinsman). Em algum momento, Bowen instalou um vibrato  Bigsby (Selmer's Guitar Shop em Londres). Pouco depois, no final de 1962, ele trocou a Les Paul na Selmer's por uma Gretsch Country Gentleman.

Keith Richards a comprou lá, provavelmente em 1963. Ele a utilizou na maioria das gravações do período, inclusive em Satisfaction. Em 1967 Keith vendeu-a para Mick Taylor, que entrara no lugar de Peter Green (outro com burst famosa) na John Mayall & The Bluesbreakers. Pra quem já percebeu, John Mayall é referência indireta quando falamos de Les Paul clássica... Foram guitarristas de sua banda, em sequência: Eric Clapton (Les Paul Beano), Peter Green (Les Paul Grennie) e Mick Taylor (Les Paul Keithburst).

A Les Paul Bigsby acabou voltando de certa forma para Keith quando Mick Taylor passou a fazer parte dos Rolling Stones em 1969. Daí começa a saga da Keithburst: segundo alguns, ela foi roubada em 1971 durante um show no Marquee Club em Londres, ou, segundo outros, em Nellcote, na França. Independente disso, a keithburst reapareceu em 1972 nas mãos do guitarrista da banda The Heavy Metal Kids, Cosmo Verrico (ele relata que a recebeu de um representante dos Stones, via gravadora/Atlantic, após ter sua própria guitarra roubada... estranho).

Verrico a vendeu em 1974 para Bernie Marsden do (futuro) Whitesnake. Bernie a vendeu novamente (com um lucro de 50 libras...), apenas uma semana depois, para o colecionador/guitarrista Mike Jopp. Mike Jopp vendeu-a num leilão da Christie's em 2003. Em 2005/2006, foi vendida novamente, para um colecionador privado europeu (quem seria?) por, acredita-se, um milhão de dólares!! Foto recente (2005?) da Keithburst:

 Les Paul 59 com Bigsby: "KEITHBURST"


DEEP PURPLE:

          Bem, voltando à nossa unidade móvel de gravação... Assim que as gravações encerraram-se em Nellcote (ppte porque Richards estava pendurado com a polícia francesa e foi para os EUA), o caminhão partiu para Montreaux, na Suíça. Missão: gravar o novo disco do Deep Purple, Machine Head.

A história de Machine Head e Smoke On The Water acho que todo mundo sabe: Frank Zappa, o incêndio, a opção final de gravar (em apenas 3 semanas) num hotel que estava fechado, etc.

Quase o mesmo padrão dos Stones: caminhão do lado de fora e um estúdio improvisado dentro do Grand Hotel.



esq: RS Mobile Unit do lado de fora do Grand Hotel, Montreaux.


Deep Purple - Suíça, 1971

1971 - Que ano!! :)

domingo, 26 de abril de 2015

Saddles (carrinhos) – o que são e como entendê-los.

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)





         O Mauro Tanaka, grande amigo meu e do Oscar, é luthier e guitarrista. Nos conhecemos no finado fórum da Guitar Player anos atrás e já pedimos várias vezes para ele um post aqui no blog. Enquanto o Tanaka não faz um especial (que tal um sobre o sistema do Buzz Feiten?), aproveitamos e roubamos o post que ele fez pra Santo Ângelo, sobre saddles.
Então, com vocês, Mauro Tanaka!

Mauro Tanaka




          Os saddles, ou carrinhos, são responsáveis em primeiro lugar, pelo principal ponto de apoio das cordas que irão definir junto com o nut, o comprimento da escala do instrumento (é uma longa história esta que deverá ser contada posteriormente em um post específico).

Este comprimento de escala é responsável pela entonação (afinação) do instrumento. Portanto, quando alguém diz que precisa ajustar as oitavas do instrumento, está se referindo à distância entre o nut e o saddle. Como o nut é fixo, a única opção de ajuste é realizada através dos carrinhos da ponte. Alguns violões possuem o rastilho com “dentes”, que são responsáveis pela compensação da entonação do instrumento.

Como ponto de apoio das cordas, é muito comum que as ocorrências de quebras das cordas aconteçam nesse ponto e por isso é necessário estar sempre ligado nas condições do local aonde as cordas irão se apoiar. Verifique sempre se não está afiado (pontudo) ou com excesso de oxidação.





Outra ocorrência comum é a instabilidade da afinação na execução de bends ou alavancadas em pontes do tipo móvel (trêmolo) dada por conta do atrito entre a corda e o saddle. Logo, manter a superfície do carrinho limpa e o mais lisa possível irá prevenir a quebra prematura das cordas e ajudará na estabilidade da afinação.











No mercado existem opções de carrinhos com rolamentos e outros feitos de grafite, que são uma verdadeira revolução na prevenção de quebras e auxilio na estabilidade da afinação. Muitos desses detalhes estão descritos no ebook SANTO ANGELO “A Saúde da Guitarra” que você baixa gratuitamente clicando aqui.





Um fator importantíssimo sobre os saddles, incluindo os carrinhos e o rastilho dos violões, é que eles são responsáveis pela transmissão da vibração das cordas para o corpo do instrumento. Logo, a preocupação com o material de que são fabricados deve ser também levada em consideração.
Um rastilho de plástico irá transmitir a vibração de maneira diferente de um fabricado em osso ou um de Teflon. Um carrinho de guitarra modelo Telecaster fabricado em latão (liga de Cobre e Zinco), terá efeito diferente de outro fabricado em ferro fundido. Assim, podemos ficar debatendo por intermináveis horas de conversa sobre o que é melhor, o que possui o timbre ideal para cada músico.


         Faço aqui o aparte sobre um erro comum que costumo corrigir em minha oficina em relação aos violões e guitarras com pontes do tipo Tune-O-Matic. No afã de tornar o instrumento mais confortável, o músico tem o raciocínio lógico de abaixar as cordas lixando o rastilho, sem atentar que sendo ele responsável pela transmissão da vibração das cordas para o corpo do instrumento e para o captador de rastilho (quando for eletrificado), existe um ângulo entre o rastilho e a fixação das cordas no cavalete que precisa ser respeitado. Caso contrário, haverá uma perda considerável de “pressão” sonora pela falta de tensão aplicada à corda pelo ângulo já citado acima.



Além disso, eles são responsáveis também pelo ajuste da altura das cordas (o ajuste da ação das cordas passa por um conjunto de outras ações além do simples subir e descer dos carrinhos da ponte) e por um ajuste muitas vezes ignorado por muitos, que é o acompanhamento da curvatura da escala.














É comum nos instrumentos, com trastes e cordas, um certo “buzz” (ruído das cordas de metal se chocando com os trastes também de metal). Existem vários ajustes que solucionam 90% desses ruídos e os outros 10% são considerados aceitáveis. Uma das causas comuns desse Buzz em excesso é justamente a falta de observação entre a curvatura da escala (fábricas e modelos de instrumentos diferentes possuem curvaturas ou radius diferentes) e dos saddles. Se tivermos por exemplo uma guitarra como uma Fender Telecaster dos anos 50 cujo o raio é bem acentuado, arredondado e a ponte estiver com os carrinhos arranjados de forma plana, as cordas centrais irão se chocar com a escala e os trastes com facilidade.


Acredito que as informações básicas sobre este importante componente do seu instrumento estão contidas neste texto. Evidentemente que por conta do espaço e do tempo, informações mais avançadas foram deixadas para uma próxima oportunidade, bem como as minúcias sobre os ajustes de cada possibilidade que os saddles nos proporcionam (altura das cordas e entonação) e como reparar saddles danificados.






Tanaka Guitar Tech – Sorocaba – SP
Facebook: https://www.facebook.com/tanakaguitartech
Blog: http://tanakaguitartech.blogspot.com.br/


domingo, 22 de março de 2015

GUITAR SHOW BH

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


          Com MUITO atraso estamos publicando o post sobre o evento que ocorreu em Belo Horizonte no dia 13 de dezembro de 2014...



Embora sejam comuns nos EUA, eventos desse tipo são raros aqui no Brasil. Exposição de guitarras raras, interessantes e vintage com encontros para discutir as peculiaridades de cada uma... Êta coisa divertida - só falta cerveja e nem precisa de mulher!! KKK!






        A exposição foi criada/patrocinada pela Beggiato Instrumentos Musicais e teve como expositores ilustres o nosso grande amigo (que já foi assunto nesse blog - CLIQUE) Tiago Castro e Felipe Nacif.

Ambos possuem vasto conhecimento sobre guitarras e afins e durante a exposição fizeram palestras sobre diversos e interessantes assuntos mas principalmente sobre suas guitarras em exposição.




















Para nossa sorte, alguém filmou as palestras do Felipe e Tiago e postou no YouTube. São 6 vídeos onde história, detalhes, curiosidades e, o mais importante, "informações pessoais, privilegiadas", sem nenhum viés de interesse comercial são divididas com o público.




Guitarras Fender e Gibson vintage originais, obras de arte modernas como a Zemaitis (que por sinal foi colocada à venda recentemente pelo Tiago - contato: stoneagemusica@hotmail.com ) e Suhr, uma Les Paul do já lendário israelense Gil Yaron, Bill Collings, enfim, só coisa de primeira.
Recomendamos que assistam os vídeos na sequência - muito, muito legal! :)







quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Dumble - A Lenda.

Oscar Isaka Jr





Todo mundo conhece o nome Dumble e o associa a uma característica: BOM TIMBRE!

Acho que eu mesmo só conheci os Dumble depois que o John Mayer virou uma hype total e todo mundo (incluindo eu) queria saber da onde vinham os timbres da época mais Blues da sua carreira. Só depois de pesquisar que descobri que o timbre DUMBLE estava muito mais presente na minha memória auditiva do que eu poderia imaginar pois um verdadeiro exército de guitarristas que eu gosto já usaram ou ainda usam amps Dumble em seus setups. Eric Johnson, Stevie Ray, Santana, Robben Ford são só alguns dos mais famosos.

Todo nós conhecemos o timbre Dumble, seja através das mãos dos nossos ídolos que os usam desde sempre ou pelos inúmeros vídeos dos originais e clones que temos no YouTube, mas pouco conhecemos sobre a cabeça por trás dessas máquinas. Na verdade existe muito pouco material sobre Alexander Howard Dumble na internet ou em qualquer outro meio de comunicação. Não há livros, não há registros oficiais, apenas algumas menções e aparições esparsas de um homem aparentemente muito reservado. Outro dia no Facebook um dos integrantes do nosso grupo deixou uma pergunta

"O que são os amps Dumble? O que os torna tão bons?"

A pergunta é muito genérica (experimente fazer a mesma pra Fender ou Marshall :-) ) e até soa preguiçosa num primeiro momento, mas faz todo sentido pois se quase não há informação em geral sobre o cara, não vai ter nada (ou quase nada) em português.

Ainda vamos tratar desse assunto novamente aqui no Blog, mas num primeiro post, decidi traduzir um artigo que achei numa Guitar Player antiga (Setembro de 1985) que tem informações básicas e uma ótima entrevista com o próprio Dumble, para termos uma ideia de quem é Alexander Howard Dumble.


O Mago dos Amplificadores Howard Dumble

Por Dan Forte/Guitar Player, edição de setembro de 1985 (Tradução Oscar Isaka Jr.)



         Jackson Brown vaga meio preocupado pelo backstage do San Francisco Cow Place. "Onde está Lindley?" ele pergunta ao seu Diretor de Turnê[...] "Subimos ao palco em 15 minutos!"

A porta ao final do corredor do backstage é esmurrada por uma onda de licks de LapSteel cheios de "gordura" e "sustain". No interior, Lindley destila seus acordes cheios e riffs claros, numa pequena salinha. com sua guitarra Havaiana no colo, através de um amplificador de aparência simples e rudimentar. 

"Eu quero esse, Howard," diz David a um homem de grande porte que estampa o sorriso de um pai orgulhoso no rosto. "Não um desse modelo, não um parecido com este, mas quero ESTE mesmo OK?"

"É só um protótipo" diz Howard Dumble.
"Beleza" diz Lindley, "Eu vou levá-lo."

David Lindley é conhecido por usar uma vasta coleção(mais de 100 instrumentos) de guitarras exóticas. Mas na estrada, ele usa somente uma marca de amplificadores, fato que deixa Howard Dumble orgulhoso. Como disse Lindley a Guitar Player nume entrevista em Julho de '77, "Eu tenho um monte de amps pequenos, mas sempre uso os amps Dumble na estrada, pois eles nunca quebram. 

"Levei um velho Fender Deluxe até Howard e disse: Quero ESSE som, mas com um timbre maior e mais alto, e ele conseguiu o que eu queria melhor do que qualquer outro."

Howard Dumble, nasceu em Setembro de 1945 e cresceu em Bakersfield na California, começando a construir rádios com 12 anos de idade. Conheceu a guitarra aos 16 (trabalhando inclusive como músico de estúdio), e em 1965 construiu uma série de amplificadores para a marca Mosrite que foram utilizados pela banda Ventures. Com o dinheiro de uma longa turnê na qual participou,
Dumble conseguiu financiar sua primeira aventura: sair de sua construção de garagem para uma oficina de amplificadores em 1968, em Santa Cruz na Califórnia. 


No ano seguinte, Dumble lançou seu amplificador modelo Explosion (o protótipo original ainda funciona) que mais tarde veio a ser conhecido como o famoso Overdrive Special. Sua linha de amplificadores atualmente inclui 7 modelos básicos: o Overdrive, o Steel-String-Singer, o Winterland e o Dumbleland para baixo, a unidade de Rack Phoenix, um direto Dumbleman de 50 Watts, o Dumbleator-- um conversor de impedâncias para uso no loop de efeitos-- e uma unidade de reverb chamada de Big Tex. Desde o começo, ele se mantém sozinho em sua oficina construindo manualmente todos os amps. peça a peça. 



Mesmo com seus altos preços -- um Head Overdrive de 100-watts custa $1,920.00; o Steel-String-Singer e o Dumbleland por $5000,00 sem nenhum opcional-- os amps Dumble estão sempre em alta demanda, mantendo Howard muito ocupado para suprir seus consumidores. Além de Lindley e Browne, sua impressionante lista de clientes inclui Larry Carlton, Bonnie Raitt, Graham Nash, Robben For, Stevie Ray Vaughan, Jay Graydon, Ry Coode, Tom Verlaine, Eric Johnson, Steve Lukather, Dean Parks, Carlos Rios, The Beach Boys, Christopher Cross, Tiran Porter, Jimmy Haslip, Jerry Miller, Thom Rhotella, Randy California, Terry Haggerty, Rick Vito, Kenny Loggins e muitos outros   (* obs: lembrem-se que esse texto é de 1985 - imaginem hoje). 

Discutindo o que há de tão especial sobre seus amplificadores, Dumble usa a estética mais do que termos técnicos. "É assim que funciona,"ele enfatiza. "É a influência emocional que realmente importa; a tecnologia é secundária - é somente um veículo. A ideia é realmente se divertir."

O exímio improvisador Henry Kaiser adiciona ao tema sobre o que faz os amplificadores Dumble diferentes do resto: 
"Numero 1, você pode jogá-lo de um prédio de 4 andares, trocar as válvulas que quebrarem, e ele vai funcionar perfeitamente. Aparenta ser o mais durável amp já contruido. 
Numero 2, a mim parece que o Howard calibra cada amplificador individualmente de ouvido, fazendo-os maquinas sofisticadas de timbres e texturas sonoras. Por conta do meu interesse anormal de explorar novos sons e timbres, eu preciso ter uma vasta carta de opções tonais a meu dispor. Eu tenho pelo menos 4 vezes mais opções num Dumble do que eu teria em qualquer outro Amplificador. Todo o resto soa terrível e eu me sinto péssimo tocando em qualquer outra coisa -- exceto por um Fender Champ."

Em agosto de '77, Lowell George da banda Little Feat foi mais sucinto. "É como um Fender feito corretamente," disse ele sobre seu Dumble. "É o melhor amplificador que eu já tive a oportunidade de tocar"...



ENTREVISTA:


Seus amps têm a reputação de nunca quebrarem. Como você os constrói para tanta durabilidade?

Esses são segredos guardados. Na verdade, se você desmontar um amplificador meu, você não conseguirá detectar como eu faço. Eu definitivamente tenho meus segredos que fazem o amplificador ter o timbre e durabilidade que tem. Com a maioria das companhias, é somente uma aplicação equivocada da tecnologia. Você não precisa destruir o produto, não precisa de um Variac para ter bons resultados. Eu presto uma atenção extrema a cada conexão e sei quais os componentes que duram e quais não.




O que fez você optar pela área da eletrônica?

Eu amava música. Música sempre foi uma grande paixão. Eu ouvia Les Paul e Mary Ford quando criança. Vindo de uma família de engenheiros, meu pai participou do desenvolvimento de um dos primeiros câmbios automáticos, então não foi muito difícil absorver tecnologia, pois estava em todos os lugares na minha casa. Ganhei uns trocados no colégio fazendo amplificadores transistorizados quando jovem e vendendo por $5 cada. Tudo ia muito bem até um dia todos tinham um e um professor me pegou...

O que o inspirou a fazer um amp?

Eu estava no segundo grau e esse cara chamado Jack Smith me pediu para construir um equipamento para a associação de Baseball. Ele disse que tinha acesso a "uma montanha" de peças, então eu concordei. Fomos ao seu depósito e pegamos tudo o que precisávamos - e tudo de graça. Construímos esse monstruoso amplificador de 200Watts para que eles pudessem fazer anúncios nos jogos de baseball. Até onde eu sei, esse amplificador funciona até hoje. Depois, eu e o Jack fizemos alguns amps baseados no Fender Dual-Showman, e apesar de não conseguirmos os transformadores originais Fender na época, soavam muito bem pois usamos transformadores David Hafler.

Antes de construir seus próprios amps, você chegou a desmontar outros como Fender e Gibson?

Eu posso desenhar alguns desses esquemáticos de cor[risos]. Claro, tive que absorver outras abordagens. Na verdade, minhas antigas modificações de Fender nos anos 60 tinham a mesma abordagem que muitos dos amplificadores High-Gain que vieram bem mais tarde.

Como você chegou a fazer os amps dos Ventures?

Eu tinha 18 anos de idade numa escola em Bakersfield e fui conversar com Semie Moseley (criador das guitarras Mosrite), que era a única pessoa a quem eu tinha acesso lá. Eu entrei do nada e já fui dizendo, "Eu tenho algo que soa completamente único. Você precisa escutar." Ele ficou surpreso e disse "Isso é a melhor coisa que eu já ouvi " e ofereceu para se associar a mim para a construção de 10 amplificadores. O negócio era de que ele compraria as peças e me pagaria $90,00 por semana por aproximadamente 4 semanas, e depois disso eu trabalharia de graça. Mesmo assim, eu ainda tinha que construir 10 amplificadores - com 18 anos e sendo somente um moleque. Eles se chamaram Mosrite Amps, mas eram meu projeto. Na verdade eu construí 11, pois eu ainda tenho o protótipo original. Os Ventures tiveram a oportunidade de testá-los e ficaram realmente impressionados, mas os amps soavam um pouco Rock demais para eles. Queriam que eu me juntasse a eles, mas eu recusei e voltei a tocar nos estúdios e bandas de rock locais.

Seus amplificadores tinham alguma qualidade que faltava às marcas comerciais daquele período?

Sim, eu definitivamente os fazia para que tivessem maior abrangência sonora, com mais frequências. Uma das coisas que eu notei nos amps de guitarra mais antigos era o fato que eram bastante limitados, especialmente nos graves. Você precisa ter muito cuidado e garantir que seus médios e agudos ainda respondam de maneira apropriada e eu descobri isso desde o começo. Você não pode construir um amp Hi-Fi e esperar que ele soe bem com guitarra, Simplesmente não funciona assim pois a curva tonal é completamente diferente. Eu descobri que se você adicionar um pouco de graves nos estágios de pré amplificação do circuito a coisa toda fica muito mais saborosa e divertida de tocar.



 Desde que você começou, a filosofia Dumble evoluiu?

Eu tento ser flexível. Eu sempre soube que tudo o que eu me propuser a fazer deve ser feito com a melhor das intenções, nunca ter nada mal feito ou meia-boca, sempre ter certeza de que funciona perfeitamente e que o visual também está perfeito. As técnicas que eu uso para obter os sons que eu busco sim, evoluíram extensivamente. É um processo de crescimento e essa é a parte mais difícil de se manter num único negócio pois você está sempre pensando em maneiras diferentes de faze-lo. Eu tenho mantido o Overdrive o mesmo, mas os outros modelos são abertos à flexibilidade.

Quais as mudanças sofridas pelo Explosion original até que o Overdrive Special fosse concebido?

O circuito mais ativo mudou bastante e o circuito responsável pelo timbre também. O que se manteve o mesmo foi a maneira de processar o sinal após o estágio de pre-amplificação. A maioria dos amplificadores de alto ganho usa um boost de ganho no pré amp mas eu já não uso isso desde o final dos anos 60. Eu descobri que tentando construir o sinal muito cedo nos estágio de pré amplificação há uma tendência de sobrecarregá-lo e isso gera efeitos "não-harmônicos", Sem contar com problemas das válvulas, com um resultado final extremamente não musical. Então meu objetivo era conseguir aquele maravilhoso "OMMPH" (corpo/presença equilibrada de graves) e sustain com toda a riqueza harmônica das notas sem nenhum desses problemas eletrônicos.



Você já fabricava o que viria a ser o Dumble Overdrive, antes de fazer o Steel String Singer?

O Steel String Singer veio depois, mas na verdade eu já estava começando a fazer uma série chamada Dumbleland em meados de 66, que eu ainda produzo até hoje. Esse foi o precursor do Steel String Singer. Eu não mudei muito dele, mas era um projeto muito à frente do seu tempo. Tinha muita potência e era muito limpo para as pessoas em geral, mas era perfeito para Stevie Ray (Vaughan). Ele tinha dificuldades de tocar num Overdrive.



Por que o Overdrive é tão sensível?

A maneira de lidar com o sinal é diferente no Overdrive pois trabalho com níveis de ganho muito intensos. Dentro de uma região linear, eu tenho uma capacidade de ganho de sinal na faixa de um milhão. Se eu entrar com 10 microvolts, eu recebo 10 microvolts de volta, e consigo isso de maneira muito estável e muito musical. A melhor maneira de encarar o Overdrive é de uma forma lenta, olhe todos os knobs e deixe o volume baixo. Saiba o que fazer com seus dedos para que ele responda bem ao seu toque. Sinta o amp! Ele tem a tendência de assustar as pessoas se não for assim devagar. O controle secreto do Overdrive é o knob de Ratio, que controla o quanto de sinal de overdrive é alimentado de novo ao circuito. Se você aumenta-lo, é ROCK CITY!


Quais as diferenças do Overdrive Special standard para o customizado para David Lindley ?

Eu modifiquei um capacitor para que a resposta dos agudos fosse um pouco diferente, mas o circuito é basicamente o mesmo.


O Lindley disse que que para alguns dos sons que ele busca, você pega emprestados a guitarra e seu Dumble para "casar" os dois..?

Sim é verdade. O amplificador responde de maneira diferente a cada guitarra para se obter alguns efeitos específicos. Eu preciso usar a guitarra do guitarrista em questão para ajustá-lo e não nenhuma das minhas. Essa é uma das grandes coisas do bom amplificado, ele não modifica o DNA da guitarra para um som homogêneo, mas simplesmente expande o sinal original. O amplificador é uma parte importantíssima da geração sonora, mas precisa ser extremamente responsivo ao que guitarra envia para ele. A filosofia que eu tento seguir é que o amplificador vai ajudar você a gerar o som que você ouve na sua cabeça.

Stevie Ray gosta de chamar seu Steel String Singer de "King Tone Consoul"

Tem algumas coisas diferentes no amp do Stevie. Ele é calibrado mais como um amplificador de baixo, modificado para acomodar as frequências de guitarra. Não é o que a maioria dos guitarristas solo usam. Uma das coisas que ele gostava é que ele podia levantar o volume até o máximo e ainda assim não distorcia, só ficava com mais volume. Ele o fazia distorcer algumas vezes por causa da sua pegada de 50 megatons de pressão, o que gera um sinal incrivelmente alto vindo de sua guitarra, o que muitos amplificadores simplesmente não suportavam. Ele gravou seu primeiro álbum com um amp de baixo que eu fiz para Jackson Browne.



Alguns guitarristas descrevem o Dumble como  uma versão do Fender Deluxe, mas com mais durabilidade, eficiência e potência. 

É uma maneira boa, porém limitada de descrever. O pequeno Deluxe tem algumas qualidades importantes, pois você consegue um grande conteúdo harmônico em volumes baixos. É realmente agradável, especialmente quando se toca sozinho. O problema é que esse som não é eficiente numa sala maior. Então uma boa analogia seria dizer que eu tento fazer algo confortável e musical, mas numa escala maior de potência mas pra isso acontecer e a analogia para por aí. O circuito é todo diferente e único para que eu consiga o resultado que eu quero. É como eu trato o circuito e como processo a inversão de fase.


Você pode "Dumbleizar" um amp Fender ao ponto dele entregar o som Dumble?

Seria uma escolha. A própria construção física do Fender limita o que pode ser modificado. Na verdade depois da ultima mod que eu fiz no Steel Sting Singer para David Lindley, ele não usa mais o Bassman que eu modifiquei pra ele. Ele buscava máxima transparência e resposta, como se flutuasse nas nuvens, então desenvolvi um circuito especial para isso. Eu posso usar um chassis Fender, mas preciso tirar tudo de dentro e refazer praticamente do zero. Tudo fica meio apertado, e as vezes meio centímetro faz muita diferença em como algumas coisas soam. É uma ciência que envolve o que chamamos de "constantes de circuito".


Ao invés de uma única chave de "Bright/deep" (brilho e profundidade), a maioria dos seus amps tem uma chave dedicada para cada controle. Você pode usá-los ao mesmo tempo?

Pode apostar que sim. O som vai ser vistoso nos graves que flutuam e os agudos cristalinos e macios como seda.


Quantos watts têm os vários modelos?

Os overdrives têm 100Watts, mas com chave para 50 e eu faço um modelo especial com 150Watts que é extremamente divertido. A escala de potência começa no Hotel Hog de 25Watts até o Winterland de 450Watts (baixo).

Existe um amp que seria o ultimato em timbre para você ou o Overdrie e o Steel String Singer são monstros muito diferentes para serem combinados? 

Na verdade a linha Phoenix é onde eu fiz isso, combinei ambos numa unidade de Rack. Você pode comprar todos os preamps separados com ou sem overdrive e a escolha entre powers de 50, 100 ou 150Watts, e juntar como quiser. A seção overdrive é expandida, ao invés de dois controles temos 4.

Após experimentar com vários auto-falantes, o que você prefere?

Eu experimentei de tudo e tem muita coisa que eu gosto. O mais versátil é o Electro-Voice, mas todos os fabricantes incluindo Altec e JBL fazem falantes maravilhosos para tarefas específicas que outros falantes não podem fazer. Eu divido falantes em duas categorias: os eficientes e os com baixa eficiência e ambos são super úteis. Falantes com baixa eficiência são os Celestion, Jensen e PAS e por uma questão de construção física não alcançam a mesma eficiência por watt como os EV ou JBL e existe uma vantagem nisso. Você consegue que o amplificador trabalhe mais, com menos volume acústico e uma estrutura harmônica unica e diferente também. Eu amo o som dos JBL especialmente para acordes, mas tive muito trabalho com um cone de 4 polegadas trabalhando de maneira não linear fazendo a bobina entrar em curto com a estrutura magnética. Os Altecs não faziam isso, então usei-os até 1979 quando a EV lançou a linha EVM.

Como sua filosofia de gabinetes contrasta com a de outras companhias?

Eu acho que a minha é diferente, pois eu não acredito numa estrutura simples de "Baffle" (defletor) com 4 laterais. Tudo é projetado para responder no timbre, e até meus gabinetes "open-back" usam o ar de maneira otimizada. É um processo contínuo de descobrir coisas que são úteis. Definitivamente existe uma técnica para projetar e desenvolver gabinetes para que exista um processo de inversão e utilização do ar movendo. Eu faço o ar responder de maneira a estar numa relação "em-fase"tanto na frente quanto na parte traseira do gabinete, de maneira que eu uso mesmo número de falantes para gerar quase o dobro de som.

Dumble e Crhistopher Cross em 1986 (amp Dumble 300 SL)


Isso afeta a qualidade do timbre?

Sim, os graves ficam absolutamente lindos. Você sente como se estivesse flutuando num campo de futebol cheio de marshmallows e adiciona uma qualidade vocal nos médios que coloca seus solos la na frente. Funciona especialmente bem para Slide, e é o gabinete que Lindley e Lowell George usavam.

Existe um alvo emocional você ainda persegue? Ou seria mais de um?

É todo um panorama. Eu não gosto de ficar confinado. Existem centenas, talvez milhares ou milhões de timbres de guitarra válidos. Quando o ar se torna elétrico, esse é o timbre perfeito, não interessa qual ele seja. É o som que excita os sentidos e cada um tem o seu!


Guitar Player Magazine - September 1985  (http://personalpages.manchester.ac.uk/staff/rob.livesey/dumble/Articles/)

Obs: infelizmente existem poucas fotos e vídeos de Alexander Dumble. Abaixo duas pequenas aparições em vídeos.
(Paulo May:) Mais triste ainda é ter que ouvir um maluco e mala como o Henry Kaiser "apagando" o Dumble no vídeo. Se o Oscar me permitir fugir do tópico, nunca ouvi um cara mais chato que esse Henry Kaiser - PQP!. Não entendo como o Dumble entrou nessa roubada...