quinta-feira, 22 de junho de 2017

Strato de Garopa e Tele de Pinho: testes e opiniões

Paulo May



(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)




         Conforme prometido no post anterior e já bastante aguardado, o post de hoje tem as opiniões e considerações de dois grandes amigos meus, o Jean Andrade e o (Miguel) Faraco. Ambos excelentes guitarristas, com excelentes equipamentos e, o mais importante - excelentes ouvidos :)
 O Faraco toca desde os anos 70 e atualmente, numa banda de cover (dos anos 70, ppte Pink Floyd e Zeppelin) muito famosa no estado, o "IMMIGRANT".
O Jean também tá na ativa com sua banda "VÁLVULA 4". São dois dos poucos amigos que me deixam feliz quando aparecem aqui em casa. Ambos têm equipamentos de dar inveja a qualquer um e, assim como eu e o Oscar, sofrem de GAS (Gear Acquisition Syndrome) incurável, hehehe.

Pois bem, de certa forma eu conheço o gosto deles (Oscar incluído) em relação à timbres e justamente por isso pedi que avaliassem as guitarras. O meu gosto definitivamente não é o padrão, já que eu prefiro guitarras bem "abertas" e dinâmicas e detesto sobras de agudo e graves soltos demais - se eu postasse apenas a minha opinião, contaminaria a conclusão de vocês com um viés muito perigoso, KKK! 

A ideia aqui era apenas transcrever a opinião deles e posteriormente eu produziria um vídeo/áudio com uma demos das duas, mas o Jean me enviou dois vídeos que, embora gravados com o celular, dão uma ideia muito aproximada de como elas soam. Acabei incorporando-os ao post, no final.
Vamos às considerações, então:

FARACO


         É complicado fazer uma análise das guitarras pois devido às modificações não tive muito como comparar, já que as minhas não são hardtail strat. De qualquer forma, eu fui comparando com as que tenho... Usei o Fender Pro Junior, limpo e alternando um Ibanez TS 808 Keeley Mod nas duas guitarras clean e drive low-gain. Usei também o Fender Super Sonic Twin de 100w com um DG-2 Drive gate da Toptone  e SP Compressor Xotic Effects,  clean e drive Hi-Gain.
 
STRAT HARDTAIL de GAROPA:

É sem duvida um pouco mais brilhante nas frequências médias e agudas mas de maneira nenhuma aquele agudo ardido - estou comparando com as minhas e com o meu gosto - fiquei também impressionado com a clareza das notas nos graves, achei a resposta dinâmica dela bem mais rápida, que é muito bom, deve ser da madeira ou da ponte ou da soma..... Às vezes parece que soa como um híbrido de tele com strat porém com mais definição em comparação com as minhas que são de Ash e Alder. 

De qualquer maneira, eu gostei bastante. Com distorção hi-gain, ela é um pouquinho mais ardida e também ruidosa, claro, como todas as strats single, aparecendo mais as frequências altas. Achei o timbre muito parecido com aquela guitarra do meu irmão, a Fender CS 56 Closet Classic (assunto de um post seu), o que é uma coisa muito boa por sinal...

Agora vamos à TELE de PINHO:  

O que posso dizer...... QUERES VENDER? :) ... A Tele é fantástica. Ou as minhas teles são umas merdas ou as cordas delas estão velhas - e olha que eu comecei a dar importância para teles de uns 4 a 5 anos para cá... 

Essa inversão do captador é muito legal, deixa a corda mi aguda mais na cara e diminui o peso dos graves nos bordões. Ficou muito bem balanceado e corrige um defeito da maioria das teles que conheço, inclusive as minhas. 
O que me deixou muito impressionado é também o som das posições dos captadores, todos, mas principalmente do grave/braço quando você usa um drive low-gain... Cara, as definições das frequências são magníficas. 
Também achei a resposta dinâmica bem mais rápida do que as teles que tenho aqui.  
Nas distorções pesadas os agudos são mais fechados, como eu gosto, destacando mais as frequências médias.
De qualquer forma, eu gostei dela em todos os sentidos - desde o bom gosto da cor, do relic, do visual e principalmente o som.
Abraço!
Faraco. 

JEAN ANDRADE

 

         Como fui o último a pegar as guitarras e sabendo da ansiedade dos leitores do blog (inclusive a minha) para conhecer os resultados, fiquei apenas 7 dias com elas, ainda assim sem muito tempo para testá-las adequadamente em diferentes situações. Acabei plugando-as em casa, em volume baixo a médio, em três dias alternados, cerca de 30 minutos cada dia, para tentar chegar a uma conclusão que, por eu não ser um guitarrista tão experiente quanto o Paulo e o Faraco, considero meus “10 centavos” de contribuição das impressões sobre as guitarras.

          A primeira coisa que eu tinha em mente ao tentar analisar os sons são as muitas variáveis envolvidas além do corpo da guitarra, como braço, escala, captadores, calibre das cordas etc. Ou seja, tudo isso deve ser considerado antes de “julgar” o tipo de madeira do corpo. Além disso, não tive experiências suficientes para poder falar das outras madeiras nacionais, como cedro, marupá e freijó. As minhas bases para comparação são as Fender Strato e Tele que eu tenho e as que já tive. Especificamente pra esse teste, comparei com uma Tele Fender RI52 de Ash/maple/maple e uma Strato Fender RI62 de Alder/maple/rosewood.

TELE PINHO:
        Testei-a comparando com minha Fender Telecaster American Vintage 52, com corpo de Ash e braço e escala em uma peça de maple.


Desligada, a Pinho soou aberta, responsiva e ressonante, porém menos ressonante que a RI52, e também com menos firmeza, definição e sustain. Penso que, além da diferença entre o corpo de pinho e o de ash, isso se deve também à diferença de calibre de cordas (010 na RI52 e 009 na pinho), à escala mais reta (quase 14") e com trastes jumbo na Pinho, em relação à escala curva (7.25") e trastes pequenos da RI52. A Pinho é mais solta e macia, a tocabilidade me pareceu mais próxima à minha Gibson ES-339 do que à Tele RI52.

         Plugada, a coisa mudou. Possivelmente pelos captadores escolhidos pelo Paulo, e pela posição invertida do captador da ponte, virou uma Tele roqueira! Apesar de plugada a Pinho continuar sem a mesma definição de cordas nos acordes que a 52 tem, ela apresenta timbres muito interessantes, equilibrados, tanto clean quanto drive/distorção. Não houve nenhuma posição da chave de captadores que não tenha soado bem, sendo que a posição meio (ambos os captadores em paralelo) foi a que pareceu mais com uma tele tradicional. 

O captador do braço não soou nada abafado como em algumas teles, sendo tranquilamente utilizado com drives mais fortes sem embolar (embola um pouco com fuzz, o que é normal e às vezes até é o objetivo de quem usa esse pedal). Minha impressão foi como som de captador de braço de uma strato, mas com mais punch. O captador da ponte, um Rosar Vintage Hot T, é rock na veia!!! Afasta-se um pouco da característica tradicional da ponte da tele (country music) e entra na seara do rock’n’roll, sendo que com drive chega a lembrar um P90. 

Ou seja, a guitarra é muito versátil, as três posições de captadores muito equilibradas entre si, possivelmente ajudadas pela posição invertida na ponte.

          Em conclusão, achei uma ótima Tele, que mantém boa parte da sonoridade clássica, mas com diferenças que a deixaram muito versátil e pronta para o rock! Difícil definir a atuação do corpo de pinho nessa equação, mas ao final minha impressão é que, aos puristas, pode soar um pouco macio pra quem quer um som de tele tradicional, aquele som “apertado” e responsivo. Mas ainda assim conseguiu manter uma boa dose de twang.

STRATO GAROPA:
         A Strato é o meu estilo de guitarra preferido, a minha escolha natural na hora de tocar. Já tive várias e me sinto muito mais à vontade para falar desse modelo do que da Tele. Essa guitarra de Garopa (nem sabia que existia essa madeira) realmente me surpreendeu. Primeiro pela leveza... é muito confortável tocar uma strato leve, isso sempre é um dos pontos que eu considero ao adquirir uma. Mas a boa impressão não ficou só quanto ao peso. Ao tocar, percebi que esse corpo parece ser uma ótima opção para a construção de uma boa strato, já que proporciona aquela “intenção” que torna a strato uma guitarra facilmente reconhecível aos ouvidos.

         Desplugada, ela tem uma ótima ressonância, definição e sustain (talvez ajudada pelo fato de ser hardtail) e mantém as características típicas das strato de alder e ash com escala de maple. Plugada, com a ajuda dos captadores de baixa saída, me lembrou MUITO uma uma Reedição 72 japonesa que eu tinha até ano passado e gostava muito. Era uma guitarra construída na FujiGen em 1985, com corpo de Ash e braço e escala em peça única de maple, com captadores de saída bem baixa. Essa Strato Garopa soa muito próximo àquela guitarra, com mais graves que as de alder/maple/maple (sem embolar nos drives) e um bom “quack” nas posições intermediárias. Ótima pra emular os sons da Black Strat do Gilmour. Não fosse o fato de ser hardtail (ponte móvel me faz falta na strato) e eu iria encher o saco do Paulo para negociar essa guitarra comigo...hehe.

        Em conclusão, sobre as duas guitarras, mesmo eu tendo gostado bastante delas em comparação às Fender RI Americanas, tenho a dizer que não acho justa a comparação entre as guitarras, por suas várias características diferentes, assim como suas diferentes aplicações. No caso específico dessas guitarras testadas, vale aquela velha máxima: “não é melhor nem pior, é diferente”. Nitidamente, consigo perceber situações em que a Tele de Pinho do teste se aplicaria melhor que a Fender Tele RI 52, o mesmo ocorrendo entre a Strato de Garopa em relação à Fender Strato RI 62.

        Dessa forma, fiquei feliz em constatar que há bem perto de nós madeiras de boa qualidade e acessíveis para construir ótimas guitarras, com características suficientes para atingir uma sonoridade clássica, sem precisar importar e/ou pagar mais caro por madeiras já consagradas.

Agradeço ao Paulo pela honra de contribuir com o Blog e pela oportunidade de testar as guitarras. Abraços a todos!

Jean Andrade


PS: Equipamento usado pelo Jean:
Amp Fender Deluxe Reverb com falante Jensen 12" de alnico, 
Pedais: Strymon Timeline, TS-808, Boss OD-3, Boss CH-1 Super Chorus,  Deep Trip BOG Fuzz.





 Stratocaster de Garopa




 Telecaster de Pinho


Então? Já deu pra ter uma ideia? :)
As minhas impressões...hum... Já faz um tempinho que testei..., talvez por eu ter tantas teles, com tantos timbres diferentes... Eu preciso rever... Amanhã se der tempo, plugo as guitarras e volto aqui no post.
De qualquer forma, a strato de garopa me lembro de ter comparado direto com uma Strato Robert Cray (alder, hardtail)  e a garopa me pareceu um pouco mais macia e com graves algo mais evidentes - o que me fez pensar numa maior similaridade da garopa com o ash (ppte o swamp) e não o alder.
A tele de pinho também soou um pouco mais macia que as duas de alder pesado e muito parecida com a KNE de alder bem leve. Assim como o Faraco e o Jean, também gostei da forma como ela reage às saturações - bem definida e nervosa.
Acho que a conclusão final do Jean e a inicial do Faraco é que deveriam ser o ponto chave aqui: tanto o pinho quanto a garopa têm sua própria sonoridade/identidade. É importante ressaltar que ambas se mostraram muito equilibradas - e é isso que mais pesa no final das contas, não é? :)
Pra quem consegue ler nas entrelinhas, o Faraco pareou a strato de garopa com uma Fender Custom Shop 56 Closet Classic e o Jean com uma Fender Japan 85 de ash que ele gostava muito. E ambos acharam a tele muito versátil e ideal pra encarar rock and roll ao vivo...


Lembro que o braço participa - e muito - do timbre final. Eventualmente, se eu mudar os braços, complementaremos as impressões.
Lembro também que a ponte da strato é fixa (hardtail) - isso influencia bastante no timbre - e o captador da tele está com o ângulo invertido - já postamos sobre isso.

Os captadores da strato são: braço e ponte: Rosar Fullerton. Meio: Wilkinson WVSM - A5 6,4k com polaridades invertidas. O Sérgio Rosar, pra manter a fidelidade "vintage",  não faz o Fullerton do meio invertido e eu queria aquele "quack" específico das posições de meio, então nessa guitarra o padrão é "moderno". Interessante que em algumas stratos isso não fica legal... Nessa ficou :)

Captadores da Tele: Ponte: Rosar Vintage Hot T - selo ouro LPG e o meu preferido ontem, hoje e sempre, hehehe. Eu pedi para o Sérgio modificar esse V-Hot T: é uma versão custom com alnico II na quinta e sexta cordas e alnico V nas demais. O alnico II reproduz os graves de forma mais definida e seca ("Tight lows", para os americanos). Somando com a inclinação invertida, temos o supra sumo do equilíbrio na ponte de uma tele. O que já era bom ficou ainda melhor! Não é à toa que nós 3 achamos o timbre roqueiro dessa tele fantástico!
Captador do Braço: chinês (sim, chinês) genérico modificado com pinos de alnico V. Eu tenho (e já tive) vários captadores de braço de tele e, com exceção do da minha Fender 68, não gosto/gostei de quase nenhum deles - inclusive o twisted tele da própria Fender. Todos muito abafados e sem graça... Descobri há algum tempo que, no caso desses captadores, a "baixa qualidade" da manufatura chinesa acaba sendo útil: por comodidade e economia, eles usam (geralmente, nunca dá pra saber antes) fio AWG 42 e não 43 e as bobinas via de regra são alguns milímetros mais altas, ou seja, fica muito parecido com um captador de strato, que é mais aberto. Basta tirar aquela barra cerâmica horrível e colocar pinos de alnico 5 e parece mágica: de cada quatro, pelo menos dois soam muito, muito bem. Na minha opinião, superiores aos tradicionais vintage, com fio 43 (e alguns ainda com o insosso alnico III). De quebra, os chineses ainda economizam na parafinação - deixam pouco tempo no banho e já sabemos que, quanto menos parafina, mais aberto o captador (mais ruído também, but who cares?)... É um típico caso de "quanto pior, melhor", hehehe. Esses captadores chineses não custam mais do que 15 dólares.

No mais, pra finalizar, eu quero agradecer também publicamente ao Faraco e ao Jean pela ajuda e empenho. Sem eles, esse post não sairia.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sonic Blue: Tele de Pinho & Strato de Garopa

Paulo May


(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Dica: para ver as imagens "full size", clique sobre elas com o botão direito do mouse e escolha "abrir link em nova aba/página".

          Há uns dois posts atrás eu mencionei que havia encomendado com o Kaiser dois corpos: Telecaster (invertida) de Pinho do Paraná (Araucária), madeira que eu queria testar há um bom tempo e uma Stratocaster de Garopa. A Garopa eu não conhecia, mas é uma madeira relativamente comum em quase todo litoral do Brasil, utilizada em móveis e geralmente canoas. Densidade entre o Marupá e Alder, bem leve e por sorte, mais dura do que a densidade sugere. O Pinho é um pouco mais denso (bem na faixa do alder) mas mais macio e pesado que a Garopa. Ambas são bonitas e fáceis de trabalhar e pintar.  Depois de prontas, a strato (hardtail) ficou com 3,2kg (uau!) e a tele com 3,8kg

Já sei, já sei... Eu prometi que não ia mais testar madeiras brasileiras, mas depois de experimentar o Timburi (nesse post, clique), que foi uma grata surpresa, resolvi tentar o Pinho. Enquanto conversava com o Kaiser, ele mencionou a Garopa e daí, já que a gente tava com a mão na massa mesmo, encomendei os dois... :)
Braços de maple nas duas: one piece na tele (com tensor de acesso traseiro) e maple cap na strato.

          Captadores Rosar Fullerton na strato (pra não errar - soam bem com quase todas as madeiras) e VHot-T na ponte da tele. No braço, um genérico de alnico que soou bem legal.  O Vintage Hot-T (nem preciso mais falar dele - clique aqui) é uma versão custom com alnico II na quinta e sexta cordas e alnico V nas demais - perfeito e com o ângulo invertido, melhor ainda! :)
A inversão do ângulo diminui a amplitude dos graves e o alnico II os deixa mais definidos -  e todos aqui já sabem da minha bronca com o desequilíbrio entre as cordas na telecaster clássica. Os pinos também são escalonados, num padrão que pra mim soa ideal. Normalmente o Sérgio (Rosar) não mexe nas alturas dos pinos de alnico - são todos "flat", mas de 3 anos pra cá, os meus VHot-T são customizados com o meu padrão de escalonamento, com o primeiro e quarto pinos mais altos, segundo, terceiro e quinto normais e o sexto o mais baixo de todos. 37 anos tocando tele... Não vou errar isso, né? KKK!



         Sonic Blue? Sonic Blue! Adoro essa cor e, como já falei em vários posts aqui, quando a gente faz o acabamento em casa (apartamento!), sem compressor e politriz, descobri que é bem mais prático - e até mais fácil - deixar num padrão "relic". Depois de tantos erros, já peguei a manha da relicagem natural e, cá entre nós e chutando a modéstia, já fiz relicagens melhores e mais naturais que muitas custom shop da Fender :) Na minha experiência, é 10 vezes mais fácil fazer relicagem "de trás pra frente", enquanto evolui a pintura e acabamento. Relicar um corpo novinho, com aquele PU duro e brilhante, bah... Nem tento... :)

Então meus caros, não é que eu goste de corpos relicados, é porque tenho preguiça de fazer o acabamento ultra hiper clean! KKK!



         Eu sei que tá todo mundo querendo saber da sonoridade das duas... Ainda estou ouvindo, comparando, esperando, ouvindo de novo, comparando de novo... Mas quando faço isso é porque elas já passaram no primeiro gargalo - ambas soaram muito bem. Pinho e Garopa? BEM melhores do que Cedro, Marupá, Freijó... Quanto melhor? Como se comparam com as de alder e ash? Humm... Ainda não sei, mas vou postar assim que concluir. O ouvido do Oscar faz uma falta danada numa hora dessas. Mas ainda tenho o Jean e o Faraco aqui em floripa pra ouvirem - ambos com gostos diferentes dos meus. Vamos ver... :)

         E pra quem tá curioso com as "tintas", todas à base d'água, com rolinho, e muita, muita lixa. Acabamento final com spray de verniz para madeiras da Colorgin - "camadíssimas finíssimas" - se tossir em cima, aparece a madeira! KKK!


http://kaiserguitars.com/


Esse tipo de tinta sem cheiro (a branca sobrou da reforma do apto :), que dá pra limpar com água... êta modernidade boa! :)

Nesse momento (foto acima), eu havia relicado a tele e pretendia deixar a strato clean, mas por um descuido com a lixa, perdi o azul num dos pontos... Preguiça total de pendurar novamente e fazer mais camadas de azul (além disso, lembro que, quanto mais tinta, menos timbre), esperar secar... Daí reliquei a strato também! :)



Esqueci alguma coisa (além do resto dos parafusos no escudo da strato)?

UPDATE 19/05/2017: Nos próximos 15-30 dias as duas guitarras serão testadas por dois outros guitarristas amigos meus e em seguida farei um post com a média das conclusões, ok?

segunda-feira, 10 de abril de 2017

... E a Roland G-707 virou uma Cabronita :)

Paulo May


(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)

         Em 2014 fiz um post sobre a excelente guitarra Fender/Roland e o novo sistema digital da Roland. Ainda tenho as duas guitarras e cada vez gosto mais do sistema, mas esse post é um vapt-vupt pra mostrar onde foram parar os "restos mortais" da G-707. Transcrevo parte do que escrevi naquele post:
"... Eu não sou e nunca fui aquele guitarrista do tipo "solista técnico/virtuoso". Sempre gostei mais de bases e arranjos, da procura do groove perfeito entre guitarra base, bateria e baixo - e eventualmente piano. Durante a época (1983-1994) que tive banda e estúdio de gravação, onde compunha jingles e trilhas, sempre busquei maneiras de ampliar os limites dos sons de guitarra. Não foi à toa, portanto, que adquiri uma guitarra "midi", uma Roland G-707 em 1986 (ou 87). A guitarra tinha um visual futurista e uma estranha barra de carbono numa segunda junção braço/corpo para minimizar as vibrações do braço e estabilizar a captação dos sinais pelo captador hexafônico...
         O "tracking" das notas era complicado, tínhamos que tocar de forma bem diferente de uma guitarra normal, evitando bends, ruídos e slides desnecessários. Aquela barra realmente incomodava e pra completar, era um porre pra tocá-la sentado. Ela ficou largada até por volta de 2000, quando resolvi serrar a barra de estabilização e usá-la como guitarra normal (a G-707 era feita na mesma fábrica da Ibanez, com corpo de alder). Quando perguntavam que guitarras eu tinha, ficava até engraçado: "duas teles vintage, uma 1968 e outra 1974 e uma Roland G-707!!" KKK! Em 2004, joguei tudo dessa guitarra fora e só fiquei com a ponte (interessante - nunca vi outra igual) e o braço"

 A guitarra parece interessante, né? Moderna, etc., mas a real é que era MUITO chata pra tocar. Tinha que ser em pé e aquele estabilizador do braço incomodava demais - parecia que tinha um outro cara tocando contigo! :)
Quando postei no finado fórum da revista Guitar Player Brasil, que havia desmontado toda a guitarra e jogado o corpo fora, meu amigo, luthier/jornalista/músico Jaques Molina queria me matar! KKKK
Na época ele estava num batalha para restaurar uma G-707 e adorava esse modelo. Cada um na sua, né? :)

         Gosto muito da pegada desse braço - é semelhante ao da minha tele 68, com poucos ombros, tipo um "C" mais profundo, quase "soft V". Não gosto do headstock invertido e é chato também porque na hora de afinar o cérebro inverte a ordem das tarraxas :)

E a ponte... Guardei também porque era muito interessante. Algo baseada na Kahler, mas um design único e que nunca mais foi utilizado pela Roland ou Ibanez. O inconveniente é que esse tremolo, assim como o Kahler, exige uma cavidade específica no corpo.

        Daí, no final do ano passado, decidido a reunir ponte e braço novamente e aproveitando as habilidades, disposição e excelentes preços do luthier Otto Schmidt Jr. de São Paulo, encomendei um corpo de marupá, estilo Cabronita, pra colocar as partes... Tive que enviar a ponte para o Otto medir e programar na CNC o padrão da cavidade, mas ficou perfeita. Mesmo de saco cheio de pintura, fiz um acabamento meio heavy relic (afinal, ela deve corresponder a uma guitarra de 1986... :) E a guitarra ficou ótima. Ainda utilizei um botão de volume original, que estava guardado "just in case" :)


         Captador Gretsch Filtertron original, levinha, braço ultra confortável, ponte... Bem, ponte rara e exclusiva, imagino :)



         Antes que perguntem por que optei pelo marupá para o corpo, respondo: em quase todas as teles que testei, o marupá tende a soar muito bem na posição da ponte. Tenho uma Telemaster com P90 que soa mais poderosa e nervosa que a própria Gibson LP Jr. Esse captador foi usado numa Cabronita de american sugar pine e com certeza soou melhor no marupá. O timbre é muito similar ao da minha Cabronita Fender de alder (caps Fidelitron), talvez com um pentelho a mais de graves.


PS: O Otto não tem site e/ou loja. Eu o encontrei no ML, onde ele vende os corpos que produz. Gente finíssima. Para acessar os produtos dele no ML, é só clicar no logo abaixo:
Link para o Mercado Livre




domingo, 26 de março de 2017

Guitarmário

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Não parece, mas tem 30 guitarras aí dentro....:)
         
         Desde a primeira tentativa - eu havia transformado um armário de roupas em armário de guitarras - deu pra adquirir um certo know how e esse aí foi relativamente fácil de criar. Passei as medidas para o marceneiro e depois foi só gerenciar a distribuição e colocação dos suportes dos braços. Claro, tive que ir atrás desses tubos de isolamento de ar condicionado e achá-los nos diâmetros corretos, mas tranquilo.

A Gretsch (em cima, à esquerda) incomodou um pouco porque ela é quase um violão de gorda. Acaba ocupando o espaço de duas, mas é uma guitarra maravilhosa e tinha que colocá-la junto com as outras.

O guitarmário original:

         Esse aí de cima é o antigo, feito "on demand" e na improvisação. Na primeiríssima tentativa usei canos daqueles que seguram cortinas de banheiro e, óbvio, não deu certo. Um dia numa loja de construções vi cabos de enxada de angelim pedra, comprei, ajustei os comprimentos com uma serra de mão e funcionaram muito bem :)


         Estava meio relutante em postar isso porque é quase certo que vai gerar um monte de perguntas, mas eu vou tentar evitá-las já mostrando alguns detalhes. E o marceneiro deve me trazer as anotações dele das dimensões totais para eu postar depois como adendo, porém ele foi feito para o espaço que eu tinha - largura, altura e profundidade.

Vamos lá: as barras de suporte do corpo, como falei, são de angelim, cerca de 4 cm de diâmetro e com espaçamento de 21,5 cm entre eles (centro/centro, portanto o espaço aberto deve ser cerca de 17/18cm). Importante, a barra anterior (mais perto da porta é 1,5 cm mais alta que a posterior - isso mantém a guitarra levemente inclinada pra dentro e não pra fora... As 4 barras inferiores estão 3 cm acima do piso do armário e as superiores cerca de113 cm. Queria fazer mais alto pra caber os dois baixos, mas não deu porque (êta lei de murphy) me esqueci de avisar o gesseiro durante a reforma pra não fazer o rebaixamento do teto nesse canto do armário...



         Todas as partes que encostam nas guitarras foram cobertas com tubos de isolamento de ar condicionado - além de proteger, esse material, na minha experiência até agora, é o que menos interage com os acabamentos - seja PU ou Nitro. Não tem coisa grudando e manchando...


Ele chegou assim:

 ... E o resto eu montei aqui. As quatro tábuas que servem de apoio para os suportes dos braços estão numa altura entre 65 e 70 cm das bases. Os suportes dos braços eu comprei numa loja de utilidades domésticas. São aqueles usados pra prender coisas, bicicletas, etc. Na parte superior direita usei um modelo menor, mas o maior (no restante) deixa mais espaço pra manobra.
O espaço entre os suportes varia - fui fazendo na hora, mas as guitarras com headstock reto (Fender, por ex.) podem ser mais próximas, enquanto as com headstock angulado (Gibson, etc) exigem mais espaço. Duas fitas de led foram passadas e deu um toque legal no interior, mas eu pretendo melhorar isso.
Acho que não esqueci de nada importante. Deus queira ninguém me pergunte pelos modelos de parafusos e/ou detalhes esotéricos... :)


PS: As outras 12 ou 13 (ou 14?) guitarras e baixos estão ainda sem local próprio. Complicado guardar tudo... :)

quarta-feira, 15 de março de 2017

Inclinação do Captador da Ponte... Mais uma vez :)

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)
 


         Agora no início de março a Fender lançou um documentário sobre os 30 anos da sua Custom Shop. Pra quem não viu ainda, é esse aqui:


         Michael Stevens e John Page foram os dois primeiros mestres em luthieria da CS, e embora eu já tenha mencionado que as guitarras John Page atuais são versões de certa forma "aprimoradas" da strato e da tele (e ambas com a inclinação invertida dos captadores da ponte), não pude deixar de perceber que a Telecaster Esquire feita pelo Michael Stevens para homenagear os 30 anos da Custom Shop também tem o captador da ponte invertido.

Michael Stevens e sua Esquire 30th Anniversary

 Ouça o teste da "telecaster" do John Page (Classic AJ) aqui:

         Bem, eu não sou luthier mas toco Telecaster há mais de 30 anos e sempre, desde o primeiro momento, me incomodei com o (leve, mas evidente) desequilíbrio entre as cordas agudas e graves (a história da quarta corda/D também soar inexplicavelmente mais fraca eu deixo pra depois).
Toda vez que olhava pro captador da ponte eu pensava: "acho que é só inverter o ângulo"...
Não sei porque demorei tanto pra fazer uma tele invertida, mas a primeira (vide post anterior) já soou exatamente como eu imaginava.

Telecaster de Timburi invertida.

O corpo de Telecaster de Timburi feito pelo meu amigo e luthier Eduardo Kaiser, da KAISER GUITARS, ficou perfeito (como sempre) e adorei o timbre do Timburi. Me parece uma excelente madeira para Teles e muito provavelmente, Stratos. Talvez a melhor até agora, na frente do cedro (bem, qualquer uma ganha dessa), marupá, tauari, mogno e freijó.

Amanhã devo receber outro corpo de telecaster do Kaiser, dessa vez de pinho, também com a inclinação invertida. Eu queria testar o pinho há tempos e sei que não deveria inverter o captador pra fazer um teste mais justo, mas essa inversão ficou tão legal que eu não quero perder a chance de matar dois coelhos com uma cajadada! :)

Inverti também o captador da ponte de uma Strato (HSS usando um escudo "Hendrix") excelente que eu tinha e tomei o cuidado de gravar um "antes e depois". No caso da strato não notei melhora - soou diferente, mas não melhor como na tele.



Nesse último pedido para a Kaiser Guitars, aproveitei e encomendei também um corpo de strato hardtail HSS (a cavidade humbucker é pra poder escolher/mudar a inclinação do captador single da ponte) e dessa vez a madeira é a "Garopa", com densidade próxima do alder... Vamos ver... :)

Aqui estão as duas:

http://www.kaiserguitars.com/

          A tele de pinho está com 2,3 kg e a strato de garopa com 1,8 kg. A regra geral é que o corpo não deve ter mais que 1,9 kg (under 4 pounds / 1,85 kg) pra guitarra ficar "leve", com peso total abaixo de 3,6 kg. Mas tá na boa - guitarra com menos de 3,4 kg, na minha experiência, tende a soar pior do que as com mais de 4 kg. Acredito que as melhores guitarras têm peso entre 3,4 e 4,4 kg.
... E meu "limite de carga" é 4,3 kg. Acima disso não dá pra tocar mais do que meia hora sem sentir dores nos ombros... :)




sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Mudando de assunto...

Paulo May
(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


         Enquanto a nossa réplica de Les Paul evolui lentamente - e eu é que não vou apressar um mineiro :) - vamos ver o que dá pra conversar por aqui.
Primeiro, os frequentadores habituais já perceberam uma forte queda na frequência de posts, e isso se deve a 3 fatos:
1) O Oscar casou-se (com a nossa querida Thalita) e quem já casou sabe que casa nova/reforma, vida à dois, enfim, vida nova, requerem um bom período de decantação até que a nova rotina permita que a  gente tenha tempo livre pra postar...
2) Eu iniciei uma reforma no meu apto que deveria durar 2-3 meses e a coisa esticou insanamente para 6 meses. Loucura. Reforma pra mim agora é que nem cedro - nunca mais! :)
3) Assuntos interessantes pra postar até aparecem de vez em quando, mas sempre que acabo de responder as perguntas diárias que pipocam pelo blog, a vontade desafina e vai embora. KKK!

Hoje, mesmo sem muito tempo, vou postar duas fotos de um projeto que já deveria ter sido feito, pois é uma coisa que vem me atucanando desde que toquei na primeira tele/strato da minha vida.
O que é? Fácil - é só olhar as fotos:


          O corpo da Strato eu vou usar um HSS Fender que vai funcionar aqui, mas o da Tele tive que mandar fazer.
Pra não incomodar ainda mais o Adriano Ramos  (RDC Guitars de Minas Gerais), liguei para o meu grande amigo e não menos competente luthier Eduardo Kaiser, da Kaiser Guitars, e, papo vai, papo vem, resolvemos fazer corpo de Timburi, uma madeira nacional muito interessante, com densidade entre o alder e ash e ressonância que me lembra a do alder (á percussão, corpo cru e pelado) - clara e definida.
E o Kaiser é gaúcho. Gaúcho põe a bola na marca do pênalti e chuta - não fica escolhendo canto. O corpo foi feito, despachado e chegou aqui em menos de 5 dias. KKK!

Telecaster de Timburi (2 peças, colagem central invisível)

Além do Kaiser, já discuti esse processo com o Oscar, o Adriano e o Bove, que me deu valiosa orientação quanto à ponte (e ele tá lançando uma versão de ponte moderna mas com furação vintage - tudo que eu mais gosto em tele, hehehe - volto a isso outro dia).

Do meu ponto de vista, se o Leo Fender tivesse pensado mais em rock e menos em country (mas era 1950, então não dava mesmo), a Telecaster (e a Strato, depois) sairia do jeito que eu tô fazendo agora.
Sou do time do John Page, hehehe...

Por enquanto é isso - volto ao assunto assim que acabar de montar e testar ambas.

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Mal acabei de postar e o Igor comentou, achando que o meu projeto era isso:

Nem sabia que existia uma coisa assim - e é Fender:
Fender Custom Shop Tennessee Stratocaster

Meu TOC jamais me permitiria chegar a menos de 20 metros dessa guitarra sem tomar um anti psicótico antes! KKKK
Os designs da tele, strato e les paul já são arquetípicos. Não ousaria (nem suportaria) qualquer mistura deles. É outra coisa que quero... As fotos são bem claras. :)

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                      Nesse meio tempo, acho que vou postar um truque que descobri para relic instantâneo (5 minutos) de pontes, capas de humbucker e partes metálicas em geral. Tô ainda preparando as fotos, mas pra ter uma ideia:

20:30hs:

20:35hs:

Fui! ;)

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25/12/2016 - BLONDE em toda sua glória. Padrão visual das teles de 68-75 com detalhes modernos. Já dá pra sentir que o tiro foi no alvo... De prima senti mais equilíbrio entre as graves e agudas. Bordões bem firmes e definidos... Infelizmente não pude colocar um Rosar Hot T porque o Sérgio está de férias até início de janeiro. O captador que tá aqui é de alnico 3, que eu definitivamente acho muito gay pra ponte de telecaster. Vou testar mais um pouco e comparar com as outras 8 ou 9 teles por aqui... :)
Assim que colocar o SR Hot T eu volto :)

27/12/2016 - Tentando chegar a uma conclusão... A diferença entre os captadores é mortal - não dá pra ter três variáveis (corpo, braço e captador) tão importantes ao mesmo tempo. O interessante é que a butterscotch (alder/Rosar Hot T alnico 4) tá soando mais alta e forte que as outras. Todos os pots são de 500 e medi a resistência - todas entre 7 e 7,25k. Isso é mais uma prova que resistência realmente não diz muito...

 Da esquerda p/ direita: Tauari, Alder, Timburi, Alder
          Mas todas soam bem. Cada uma com a sua característica, porém todas soam "Telecaster". As diferenças. ppte no espectro de médios e dinâmica, são claras para os ouvidos de apaixonados por teles, mas sutis (e até inexistentes) para leigos e desinteressados :)
Nem ouso colocar a tele 68 de hard ash aí no meio. Ela sempre soa melhor que qualquer outra, então tô tentando comparar o Timburi com o Alder. Eu arriscaria dizer que ele tá mais na praia do Swamp Ash.

Até o momento, madeira aprovadíssima para teles. E essa peça é particularmente leve. Muito legal.
 ...E já dou um toque - antes de pintar o Timburi, use filler. A superfície natural é semelhante ao mogno, com muitas micro ranhuras e poros grandes. Se não usar filler, vai ter que encher de tinta/verniz, que não é aconselhável.

A única certeza até agora é que a inversão do ângulo do captador é - definitivamente - um fator de equilíbrio entre a força/volume das cordas. Nem precisei incliná-lo.

PS: KKK! O corpo da branca parece maior que os outros, né?  Distorção da imagem (celular). Ainda tô com elas aqui no chão e fui checar à olho nu - é ilusão de ótica mesmo :)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Projeto Les Paul - Parte 2

Paulo May


(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



(Obs: Parte 1 aqui: CLIQUE)

          Semana passada enviei um e-mail para o Adriano Ramos  (RDC Guitars de Minas Gerais) dizendo que o pessoal tava reclamando (educadamente, é claro) da falta de updates desse projeto.
Ele realmente esteve muito ocupado nesse período (esse é um projeto paralelo, que ele faz apenas nas horas vagas) mas apertou aqui e ali e fez mais alguns vídeos mostrando o processo de manufatura do braço.
         Outras coisas também aconteceram aqui pelo sul. O Oscar casou-se em setembro em Curitiba e eu iniciei uma reforma no meu apartamento em Florianópolis em maio que deveria ficar pronta em julho (mudei essa semana, depois de gastar o dobro do planejado e ainda sem todos os móveis).
Enfim, forças ocultas e inesperadas acabaram atrasando demais o projeto, mas ele continua de pé, firme e forte! :)

          Agora que o Oscar voltou e eu tenho onde dormir de forma digna, acho que o blog deve ter posts mais frequentes. Ainda estou tentando achar lugar para as minhas 35 guitarras no novo apartamento (prometi pra mim mesmo que durante a reforma venderia umas 10 ou 15, mas tenho pavor de vender coisas).
Mas a gente dá um jeito... :)

Segue então o vídeo. Em breve voltaremos por aqui!




quarta-feira, 22 de junho de 2016

Projeto Les Paul: "Alea jacta est"

Paulo May


(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



          Na época que criei esse blog, em 2010, num ímpeto de empolgação e arrogância, achei que não seria tão complicado fazer uma Les Paul, mais ou menos no padrão clássico (1958-1960)... Já havia lido bastante coisa sobre a construção, madeiras, hardware, etc. e comecei a arquitetar um "plano infalível": compraria aos poucos as madeiras e peças, encontraria um luthier bom e disposto e, com um pouco de sorte, teria uma réplica de Les Paul nas mãos.
Sério, cara? KKKK! O buraco é bem mais embaixo...

Mas, continuando. Num momento em que o dólar estava legal, comprei quase todo o hardware e plásticos na Stewart-MacDonald (stewmac) uma das maiores lojas do mundo em suprimentos para luthiers. O top de maple consegui comprar aqui no Brasil, com o Miguel Cardone da Music Tools. Lindo flame, acredito que no mínimo, qualidade AAAA.
Com a dificuldade para conseguir o mogno e um luthier que eu pudesse ter mais contato, entretanto, cai na real e vi que teria que adiar por tempo indeterminado esse projeto. E fiquei com aquela peça linda de maple guardada, do lado da caixa com os itens da Stewmac, por quase 6 anos...

          Nesse meio tempo, conheci brasileiros com trabalhos e produtos de qualidade surpreendente e excepcional, como Rosar, Manara, Bove, Pedrone, Adriano Ramos, Castelli e vários outros que foram postados aqui no blog. Nosso amigo Adriano Ramos, da RDC Guitars de Minas Gerais, é o foco aqui. Já postei várias guitarras que tiveram os corpos feitos pelo Adriano e sua fantástica CNC. Sempre que tinha alguma ideia maluca, sabia que podia contar com ele pra me ajudar a executá-la. Paciente, minucioso e, antes de tudo, fanático por guitarras, o Adriano topou, sem pensar duas vezes, encarar a aventura de fazer uma Les Paul no padrão das "boas", clássicas.



         Em janeiro desse ano, vi um anúncio de um bloco de mogno no ML e fiz uma série de perguntas para o vendedor, Mozar Menezes, de Jandira/SP. Bloco de mogno brasileiro (nem vou me estender aqui, clique para ler mais), com cerca de 15 anos, medindo 50,5 x 35 x 4,4 cm e peso total de 4,8 kg
Como sempre mencionei no blog, 99% do mogno "brasileiro" que tenho visto é pesado demais, mas esse bloco tinha um peso similar aos blocos de mogno hondurenho (de peso médio) que pesquisei na internet/ebay. Nessas medidas aproximadas, um bloco leve pesa cerca de 4 kg, um intermediário entre 4,2 e 5 kg e os pesados sempre mais que 5 kg.

Abaixo, as fotos do maple e do bloco de mogno, antes de eu enviar para o Adriano:


Então, nós temos um bloco de peso "médio" e esse será o dilema daqui pra frente - eu não gosto de cavidades de alívio de peso, mas se fizermos com o mogno sólido, corremos o risco da LP ficar com mais de 4,5 kg no total. E 4,5 kg é o meu limite - não tenho ombros para mais que isso.
Não consegui saber as medidas exatas dos blocos que a Gibson separa, mas esse post (clique) deixa bem claro que o nosso bloco tá meio longe do bloco das Reissue e outras CS.

Perguntei para o Adriano se postaríamos tudo no final, depois da guitarra pronta, ou faríamos os posts em tempo real, mostrando a evolução do processo. "Se der alguma merda - e a 1ª lei de Murphy diz que sim - ou acabarmos com uma Les Paul de 6 kg?"... Perguntei. E ele bateu o martelo dizendo: "Pô, mas o legal é com emoção... Vamos fazer ao vivo!" KKK!
É isso - a essência do blog é mostrar o dia a dia do aprendizado. Portanto, "faz parte", hehehe...

Daqui pra frente postaremos todo (ou pelo menos a maior parte) o processo - sempre que possível com vídeos. Toda a ação nesse momento está acontecendo na RDC Guitars, lá em BH:

Cruzando os dedos, então...  "Alea jacta est" - A sorte está lançada! :)

ADRIANO RAMOS - RDC GUITARS



domingo, 22 de maio de 2016

SOLLO Amps - Mais Brazucas!

Oscar Isaka




Nos últimos anos temos presenciado uma verdadeira revolução no mercado nacional de instrumentos, e principalmente no nosso ramo das cordas. Tivemos empresas tradicionais se reformulando, hand-makers se profissionalizando, algumas surgindo e muitas novidades em praticamente todos os ramos, guitarras, amps, acessórios, pedais etc. Nessa empreitada toda conheci o pessoal da Sollo Amplificadores apresentados pelo meu amigo Frankly Andrade. Na época ele testou o Mini8, único amp da empresa até então, e entrevistou o Filipe, um dos sócios da Sollo para o seu canal do YouTube (Entrevista Parte 1 , Parte 2).


O Filipe então me contactou e conversamos um pouco a respeito dos amps e conceito da marca, até que acordamos de tentar que ele me enviasse um amp para testes. Nesse meio tempo eu acabei conhecendo também o Rafael, o outro sócio da Sollo. Eu acho muito interessante (pra não dizer indispensável) conversar com os idelizadores da empresa. Conhecendo muitas vezes a origem das idéias, propostas dos produtos e objetivos conseguimo entender melhor onde querem chegar e com isso estabelecer melhores expectativas sobre o nosso próprio objetivo e o que nós podemos extrair de um amplificador/guitarra/pedal. Foram alguns meses de conversas, mas eu tentei resumir os pontos que considerei principais em algumas perguntas num bate papo muito legal com eles.


A Empresa!

LPG: Primeiro de tudo muito obrigado pela presença aqui no blog e pelo tempo. Como começou a Sollo? Da onde veio a idéia, "Vamos fazer valvulados para guitarra"?

Sollo: Opa Oscar! É um grande prazer poder bater esse papo aqui contigo, nós que agradecemos a oportunidade. A Sollo começou de um sonho, um impulso... éramos engenheiros e na época já trabalhávamos com desenvolvimento de hardware de ponta, em uma empresa de rastreamento veicular chamada Autotrac. Na época a gente sabia muito de engenharia e quase nada de empreendedorismo, mas a essência do que viria a ser a Sollo já estava ali: a busca incessante pela qualidade, a busca por fazer as coisas direito (a Autotrac no ensinou muito nesse aspecto!).
 Com o tempo trabalhando juntos, nos tornamos grandes amigos, e nessa amizade a gente conversava muito sobre trabalhar com alguma coisa que a gente fosse apaixonado. Até que um dia o Renato me convidou pra abrir a Sollo. Eu, claro, topei na hora! (ia ser fantástico pertencer a uma empresa que estivesse envolvida com música \o/)
 Quem já abriu empresa sabe que o início é sempre muito difícil, a gente discordava de várias coisas... mas uma coisa sempre foi unânime na Sollo: a gente faria amplificadores de nível mundial. O nosso plano é (e já era na época) conquistar não só o guitarrista brasileiro mas também guitarristas pelo mundo todo.
 Hoje em dia, com a experiência que a gente tem, teríamos feito tudo com mais planejamento e cautela. Mas a verdade é que aquele ímpeto foi essencial para que o sonho não ficasse no papel para sempre.

LPG: Em nossas conversas iniciais me chamou atenção o fato do Solo Mini8 não ter sido "baseado" em algum outro amp já existente. Isso é relativamente incomum num mercado que há mais de 60 anos tem muito de re-leituras e pouco inovações. Pode falar um pouco sobre isso? Como a Sollo foi pensada no quesito mercado sendo que temos alguns outros nacionais já consagrados até como Pedrone e etc? Como competir com tanta qualidade num mercado bastante saturado?


Sollo: O nosso plano nunca foi competir por um espaço já ocupado pelos players que estão no mercado há tanto tempo... por isso sempre nos posicionamos em um lugar de mercado diferente do “hand-maker”. Os grandes nomes já conquistaram um espaço próprio no mercado e fizeram um ótimo trabalho para estar lá, não vimos sentido em tentar lutar por esse espaço com competidores que já estão há décadas se especializando em amplificadores hand-mades.

 A gente resolveu ir por um caminho que tivesse mais a ver com a gente mesmo, com o nosso DNA enquanto pessoas e enquanto empresa. É importante entender aqui que lá no fundo da gente residem nerds de laboratório que adoram calcular correntes e tensões em circuitos elétricos, hehehe. Desenvolver projetos próprios era o nosso sonho na Universidade de engenharia (o Renato é formado em Engenharia Elétrica pela UnB e eu sou formado em Engenharia Mecatrônica e com mestrado em Sistemas Mecatrônicos, também pela UnB). Surgiu naturalmente a vontade de criar amplificadores do nosso jeito, com o nosso timbre e com os recursos que achamos essências.
 Não pensamos nas outras marcas como competidores, na nossa visão tem espaço para todo mundo se você souber se diferenciar. O lugar que a Sollo busca é de qualidade de nível mundial mas com personalidade brasileira. Nessa ideia, não só o nosso produto precisar ser de altíssima qualidade como nosso atendimento tem que ser eficiente e ao mesmo tempo ter o tempero brasuca: irreverente, caloroso e prestativo.
 Isso é um ponto importantíssimo para entender a Sollo, a qualidade dos nossos produtos é importantíssima, mas não é tudo. Nos preocupamos muito com a experiência do nosso cliente, antes, durante e depois da compra.

LPG: Falando dos amps, eu tive a chance de testar o Mini8 e o Mini50 e de cara percebe-se que as diferenças vão além da potência. São amplificadores com sonoridade distintas porém ambos tem um viés moderno onde os timbres limpos são cristalinos e realmente limpos e o canal de drive fala bem mesmo com ganho médio pra alto. Poderia falar um pouco do conceito de ambos e como foi o processo de "CHEGAMOS, é ESSE SOM"?

Sollo: Cara, excelente pergunta! (e bem difícil de responder, hehehehe)
 Vou começar pelo processo de “CHEGAMOS, é ESSE SOM”. O timbre em é muito uma questão de senso estético e referências de cada um, não existe timbre certo ou errado. Sabemos o som que queremos e vamos atrás de esculpir o circuito até chegar lá. Por isso é tão importante o fato de termos um músico-engenheiro como projetista: você precisa saber onde quer chegar (músico) e como chegar lá (engenheiro).
 Quando o projeto toma forma, vamos para o palco testar ele na mix com a banda. Aí entramos em uma fase de ajustes com muitas idas e vindas. É um processo de tentativa erro que pode levar de 1 mês a 100 meses. Só finalizamos o projeto quando ficamos 100% satisfeitos com o resultado.
Agora vamos aos amps: acho que você mesmo definiu muito bem a estética geral dos nosso amps: canais limpos e cristalinos e drive moderno com definição mesmo em alto ganho.
O Mini8 foi o nossos primeiro projeto, e nasceu para ser nosso “pequeno e abusado”. O Mini8 nasceu para quebrar algumas ideias consolidadas no mercado: amplificador pequeno não tem alto ganho, não tem loop de efeitos, só tem um canal, equalização só por tone... Porque tem que ser assim?

A gente tinha a expertise necessária para fazer um amp que contrariasse esses pontos e decidimos encarar o desafio. Aí nasceu o Mini8, um amp MUITO compacto e leve mas com um timbre absurdo e recheado de recursos que consideramos essenciais: 2 canais, loop de efeitos e equalização em 3 faixas. Uma característica importante do Mini8 é que ele é Single Ended (Classe A), o que traz uma característica bem interessante: um timbre mais macio (mesmo no alto ganho). Isso já explica parte da diferença que existe entre o Mini8 e os outros dois: Mini20 e Mini50.
Os mais recentes Mini20 e Mini50 nasceram juntos. Eles mantiveram a identidade de timbre da Sollo, mas foram além: com 4 válvulas no pré ao invés de 2 a gente teve novas possibilidades: mais grave, mais ganho e mais controles (principalmente a equalização no canal limpo). Além disso, a topologia do power mudou também para push-pull (Classe AB), o que deu a esses amps uma característica ainda mais rock’n’roll. São amplificadores mais encorpados e mais “nervosos”, com um timbre único.


A principal diferença entre os amps são:
- Os Mini20 e Mini50 tem equalização no canal limpo, o Mini8 não;
- O timbre do Mini8 é mais macio (com uma pitada de blues) enquanto o Mini20 e Mini50 tem um timbre mais pesado;
- O Mini20 e o Mini50 tem mais presença de graves e bem mais recursos (saída de linha, boost de volume e redutor de potência).




LPG: Futuro? O que podemos esperar ainda da Solo nos próximos meses?

Sollo: Novidades! E prometo que vão ser novidades bombásticas, hehehehehe.
Estamos com dois projetos em fase final. Um é o já anunciado amplificador assinatura do Marcelo Barbosa (que, como todo mundo sabe, toca no Angra e no Almah atualmente), que vai ser um amplificador com a cara dele: 100W de potência, 2 canais e um timbre pesado. Vai ser o amplificador perfeito pra quem curte rock progressivo e metal.
O outro é um amplificador que tem como foco principal o timbre (a qualquer custo). Vai ser o primeiro amplificador que vamos fazer nessa linha, sem que estejamos concentrados no tamanho, peso, custo ou potência, mas sim focando no timbre.



Foi um grande prazer poder participar dessa entrevista com você Oscar! Espero que as perguntas tenham sido respondidas direitinho =D


Os Amps!



O Mini8 foi o primeiro que liguei. Ele vem numa bag muito bacana e o tamanho e peso impressionam. Bem pequeno e leve e com a bag e todos os acessórios( Cabo Speaker, Foot) é realmente fácil de levar pra qualquer lugar. Usei o falante Celestion V-Type do meu Deluxe Reverb ao invés do gabinete da Sollo por questòes de logístisca, mas a resposta do V-Type não vai fugir muito do Eminence GB128 que acompanha a CX 1x12 fornecida pela empresa, já que ambos são de DNA Greenback. O canal clean tem só o botão de Volume e logo no primeiro acorde já da pra notar a voz do circuito com um bonito brilho e faixa de médios que lembra o clean do famoso Hotrod Deluxe da Fender. Claro que um amp de 8W com uma 12AX7 no power não vai produzir graves extensos e profundos como uma valvula pentodo tradicional como uma 6L6 mas achei a resposta do amp equilibrada. É um clean clássico bem plug'n play e é uma pena a falta de uma EQ complete de graves médios e agudos tenha sido preterida em função do tamanho do amp, que era realmente o foco do projeto.

Fica claro que o foco principal do Mini8 é no canal de drive, este sim comportando a EQ de tres bandas tradicional. Sempre testo canais de drive com ganho perto de zero e vou timbrando e aumentando gradativamente pra entender bem os estágios. Fica claro que o Mini8 não foi pensado pra uso em baixo ganho pois o volume e o timbre ficam meio magros nessas configurações mais brandas. No entanto a medida que o ganho passa de 11-12 horas a coisa muda e o amp encorpa bastante e adquire uma característica mais britânica tradicional sem ser ríspido. Com uma LesPaul e o ganho perto de 2hrs deu pra chegar em sonoridades HardRock muito bonitas. O Loop de efeitos e efetivo e transparente deixando o DD-7 sonado bem e sem mudar o timbre. Da pra passer horas brincado com o Mini8 nessa configuração e com a grande vantagem do não precisar atrapalhar ninguém na casa. 8W sào mais altos do que vc possa imaginar, mas o amp timbre bem a volumes bem razoáveis para estudas depois das 22:00hrs tranquilamente sem o famoso "Abaixo isso P***" .




O Mini50 já tem outra pegada e com um par de EL34 empurrando 50W em push-pull tudo muda. Aqui ambos os canais tem EQ completa além de uma função Boost separada e acionável pelo Foot. O Mini50 ainda tem um Line-Out com volume independente direto do Pre-Amp para gravação ou mesmo ligação direta pra mesa. Vale ressaltar que essa função não tem emulação de falante embutida e nem o load nescessário para evitar danos nos trafos de saída caso não se tenha falantes conectados. Mesmo assim tal saída é útil caso você possua uma DI Box específica para guitarra com simulação de gabinete para mandar o som para a mesa sem precisar depender do microfone no amp. A chave de redução de potência conta com 3 nívels, 5W, 20W e 50W e funciona relativamente bem sem alterar muito o timbre do amp e o loop também provou ser bem transparente dentro do que eu pude testar com o mesmo DD-7 do teste do Mini8.


O canal clean mostra logo de cara a que veio com um timbre bem na praia dos monstros modernos como MESA BOOGIE com uma dose cavalar de graves, médios mais "scooped" e agudos bem cristalinos . É um som bem limpo mesmo e com bastante "headroom", ideal pra guitarras com captadores bem encorpados e ativos por exemplo que já tem muito médio por natureza, deixando dedilhados e arpejos muito definidos. Com um ajuste de EQ eu consegui fazer minha Strato soar muito gorda e definida e com um toque de drive (Um TS808 por exemplo) se conseguem bons sons low gain, apesar de claramente não ser essa vocaçào do Mini50. O canal drive invoca a modernidade Americana clássica com um drive brutal e bastante agressivo. Não é a toa que guitarristas como Marcelo  Barbosa (Angra, Almah) gostaram tanto do timbre dos Sollo! Diferente do Mini8 flerta com os sons britânicos classicos, a versào 50W é pura agressão e ronco. O grave é presence mas bem apertado, médios e agudos bem agressivos sem soar magros fazem do amp uma bela plataforma de estilos de Rock mais pesados deixando mais uma vez bem escancarada a proposta de sonoridade mais moderna da empresa.